Desenroladas


Conheça o FIA {oficina de artesãs} e as novas formas de consumo

[FIA] - Editorial Renan-2-31

Pode ser que ainda inconsciente, talvez bem de leve, mas certamente a sua maneira de consumir tem mudado dos últimos tempos pra cá. Quem sabe você atentou para uma pequena marca local, resistiu à última liquidação ou ainda fez as pazes com o guarda-roupa percebendo as inúmeras possibilidades que lá existiam. Sim, nossos hábitos de consumo vem mudando e alguns projetos se destacam ao perceberem esse movimento e oferecerem alternativas criativas.

Dessa vontade de repensar os laços entre mercado, artesãos, designers e público, nasceu o FIA {oficina de artesãs}, um projeto encabeçado pela Catarina Mina e sua diretora, a Celina Hissa, em parceria com artesãos, instituições e outros profissionais apaixonados.

FIA {oficina de artesãs} surgiu durante oficinas para artesãs de Sobral e comunidades da região. Os encontros foram promovidos pelo IADH (Instituto de Assessoria para o Desenvolvimento Humano), pela Prefeitura Municipal de Sobral (Ceará) e contaram com a parceria da marca Catarina Mina, no formato de consultoria de desenvolvimento de produto. Durante meses de trabalho, os grupos de mulheres e Celina Hissa trocaram conhecimentos, desenvolveram peças e afinaram suas técnicas. O objetivo nessa etapa inicial foi aprimorar o fazer artesanal e potencializar a rentabilidade do trabalho das artesãs.

Ao final das oficinas, uma mini coleção já estava criada e peças pilotos prontas para serem reproduzidas. Contudo, veio à tona o principal problema: como fazer com que aquelas peças tão bonitas e idealizadas chegassem ao consumidor? E mais: como fazer com que as pessoas que se dedicaram ao artesanato pudessem se sentir encorajadas, confiantes e seguras, inclusive financeiramente, com aquilo que produziram?

Surgiu então a ideia de um financiamento coletivo. Mas, para entender todo o projeto e ainda discutir essas novas formas de consumo, conversamos com Celina Hissa e Livia Salomoni (que fez parte da criação das estratégias de planejamento).

1- O FIA nasceu de um insight ao final de uma oficina da Celina com artesãs de Sobral. Qual foram os primeiros passos para que esse insight virasse, de fato, um projeto?

Fui convidada para pensar mini coleções com as artesãs, melhorar os seus produtos para que essas mulheres pudessem ter um aumento em suas rendas.  Durante as oficinas formos percebendo que não bastava criar produtos, pois uma grande necessidade das artesãs dizia respeito aos canais de venda e comercialização. A criação de coleções sem a previsão de entrega de encomendas desestimulava o coletivo e dificultava o andamento das oficinas. Pensando em tudo isso, tive a ideia de um financiamento coletivo acontecendo em paralelo aos processos de criação.
Denominamos de mini coleções pois sabemos que são começos, o apoio do consumidor nessa hora é essencial, pois esse estímulo em paralelo a nossa criação que vai viabilizar a continuidade do projeto.
O sucesso desse projeto, além do benefício financeiro, fortalece a crença das artesãs de que o aprimoramento artesanal é algo vale a pena.
Paralelo a isso, a Casa da Economia Solidária (representada por Silvana Parente) também me convidou para pensar um material gráfico para as artesãs (logo, etiquetas, nome) e customização de uma plataforma digital.
Foi nesse momento, com essa pequena verba, que resolvemos fazer algo que realmente fizesse a diferença. Sabemos que além do aprimoramento do produto, da criação do material gráfico, de pensarmos etiquetas e embalagens, uma das maiores necessidades era também canais de venda. Tudo caminha junto:  é necessário produto, é necessário design gráfico, mas, antes de tudo, é necessário chegar até o consumidor.
Pensando nisso, surgiu a ideia de um financiamento coletivo. A verba seria toda revertida para viabilizar a produção das artesãs.

[FIA] - Processo_Parte_2_foto_haroldo_saboia-1471

2. Quais pontos desse processo de criação do FIA foram essenciais para que ele se tornasse viável (inclusive financeiramente)?

Primeiro, a confiança plena de Silvana Parente e Angela Monteiro (do IADH) nas sugestões feitas por mim e pela Lívia Salomoni
Segundo, a expertise da Catarina Mina, o conhecimento e as estratégias de planejamento da Lívia Salomoni, a generosidade dos profissionais apaixonados que se envolveram com o projeto e, essencialmente todos os embaixadores. O apoio desses profissionais (que passamos a chamar de “profissionais apaixonados” ), o apoio da Catarina Mina, que também passou a emprestar parte de sua estrutura e know-how, o apoio de Silvana (Representante do IADH) que confiou plenamente nas sugestões minhas e da Lívia Salomoni para reorganizar a verba inicial, tudo isso foi essencial para viabilizar o projeto.

3. O artesanato, até então, é produzido em moldes já viciados de produtos. Quais as fontes de inspiração para a criação de novos designs, sendo que até mesmo o nosso olhar já é muito acostumado dentro das possibilidades do artesanato?

A inspiração surge nos momentos mais inesperados, por isso essa pergunta é sempre tão difícil de ser respondida. Mas uma coisa que sempre inspira é aprender sobre a técnica e com as artesãs. As ideias vão surgindo quando elas me ensinam sobre o fazer, a partir daí vamos conversando e inventando, mudando detalhes. São nesses momentos que a criação começa.

[FIA] - Editorial Renan-2918

4. Apesar de já bem conhecido e com incríveis cases de sucesso, o financiamento coletivo ainda gera dúvidas, tanto de quem compra como de quem produz. Quais foram as dúvidas de vocês e o que fizeram acreditar que essa era uma maneira interessante de consumo?
Nos parecia bem simples: Havíamos criado produtos incríveis com preços super acessíveis. Tudo que precisaríamos era conseguir chegar até as pessoas e contar essa história.
Nosso único desafio seria que o consumidor esperasse um pouco pela chegada deste produto, mas o Natal nos deu um mote que justificava tudo. Além disso, os produtos eram lindos. Apostávamos muito nisso! Também, muitas vezes, o artesão se desestimula a fazer novas peças por não haver venda garantida. Por outro lado, o ritmo próprio do trabalho artesanal não condiz com a produção acelerada e com a venda em enormes quantidades.  Outro ponto que colaborou bastante foi a conteúdo já disponível na plataforma do Catarse e o apoio dos profissionais desta rede. Eles fazem questão de compartilhar experiências anteriores, possibilitando que você planeje muito bem uma campanha antes de subí-la na plataforma. No entanto, há uma ansiedade gigantesca de nossa parte e de todas as artesãs de que a meta de arrecadação que estipulamos (R$25.000) seja atingida até o dia 13 de novembro. E o Catarse funciona no modelo “tudo ou nada”. Ou seja: ele só repassa o dinheiro arrecadado se a campanha atinge a meta planejada. É um misto de emoção, ansiedade, crença de que vai dar certo e uma vontade de ter amigos, entusiastas e interessados ao nosso lado nessa campanha. Fica clara aqui mais uma vez a importância do consumidor nesse processo.

[FIA] - Editorial Renan-2821

5. A Catarina Mina iniciou o projeto #umaconversasincera que trazia um novo tipo de relação entre o artesão e a marca. De que modo esses projetos conversam (FIA e #umaconversasincera)?
A ideia de incluir o consumidor como protagonista no sucesso de um projeto está em ambos os projetos. O projeto #umaconversasincera viabilizou que a rede de artesãs colaboradoras da Catarina Mina triplicasse em menos de um ano, todas recebendo valores justos pelo seu trabalho, várias recebendo quase dois salários mínimos. Isso só é possível porque o consumidor acredita e se implica na cadeia de consumo. Entendendo seu lugar não apenas como consumidor, mas principalmente como viabilizador de um projeto. Principalmente no caso do artesanato, a reinvenção desse fazer e sua continuidade na nossa cultura precisa ser entendido como algo que depende de várias mãos.

6. Vivemos um momento especial de questionamento sobre a responsabilidade do consumidor final sobre o processo de produção. Mas, até que ponto vocês sentem que essa consciência é real? Até onde ela faz parte de uma massa ou se mantém em um nicho?

Acreditamos que é difícil definir exatamente até onde ela é real ou parte de um nicho, na verdade ambos se misturam e se influenciam mutuamente. Acredito que o questionamento mais profundo existe realmente em um nicho, mas ele reverbera, influencia e guia muitas pessoas.
Além disso, existe um questionamento intuitivo, corporal, que toca a pele, sabe?! Mesmo que não chegue a ser racional, esse questionamento está em todos nós que vivemos o século XXI. Hoje sabemos, mesmo que sem elaborar o discurso, sabemos na pele, o quanto é importante um consumo cada vez mais consciente.  A gente aposta nisso, e só vê sentido nesse trabalho de comunicação e produção de novos produtos quando pautados neste tipo de reflexão.

[FIA] - Editorial Renan-2695

7. O FIA conta com uma rede de colaboradores, além da Celina e da Lívia. Qual foi o papel de cada um?

Celina Hissa (concepção, direção de arte, redes sociais)
Livia Salomoni (concepção, planejamento, redes sociais)
Haroldo Saboia – Imagens
Lucia Evangelista – Textos
Jackson Araujo – Embaixador
Pedrinho Fonseca – Embaixador
Elisa Bezerra – Embaixadora
Antenor – Embaixador
Ney Filho – Embaixador
Milena Holanda – Embaixadora
Mariana Marques – Embaixadora
Fernando Barroso – Embaixador
Paulo Junior (Caramelo) – Assessoria de Imprensa

Como funciona:

1.     O consumidor encontra um catálogo da mini coleção desenvolvida pelas artesãs no site do projeto no Catarse (http://catarse.me/fiaoficina)

2.     O apoio é feito por meio da encomenda de uma ou mais peças. 

3.     O valor desse apoio funciona como uma pré-compra, viabilizando a matéria prima da própria peça e a remuneração das artesãs, que já começam a trabalhar com renda garantida. 

4.     As peças serão enviadas pelos Correios a partir do início de dezembro para todos aqueles que confiaram e apostaram nesse novo jeito de vender e comprar.

Saiba mais: