Desenroladas


O que rolou na primeira edição do Mana a Mana, evento formado apenas por mulheres empreendedoras

Em sua primeira edição, admiramos/conhecemos/desejamos o trabalho de artistas mulheres no Mana a Mana, feira criativa pensada para incentivar o comércio local de empresas femininas e feministas. Tatuagens, ilustrações, bonecos de pano, bordados, tramas e quitutes: o trabalho manual foi requisito e motor da proposta.
Ao desenvolver o conceito, a organização, também composta unicamente por mulheres, percebeu a ausência de eventos específicos focados em trabalhos e processos manuais, artesanato e artes em Fortaleza. “Nós tivemos uma preocupação muito grande em sermos fiéis ao propósito da feira, de termos 100% de produção feminina, de mulheres que fazem com as mãos. Isso justificou a escolha do espaço, o Vila Arte, gerido pela Denise Saboia, uma ceramista”.

Lá, encontramos as irmãs Patricia e Priscila Furtado, designers do Uinverso, e conversamos sobre o protagonismo feminino e o processo criativo.

Como foi participar de um evento composto apenas por mulheres? Qual o sentimento em relação a projetos que enaltecem a mulher?

Priscila: Aceitamos o convite na mesma hora! (risos) Acredito que as mulheres cansaram de esperar por espaço em locais tradicionais que as representassem, principalmente no meio criativo. E a feira é um meio de tomar atitude independente do mercado de trabalho. A história sempre se repete e estamos nesse momento novamente, de lembrar à humanidade que estamos atrasados e que queremos apenas diretos humanos básicos. Igualdade é o que busco.

Vocês trabalham com ilustrações e cerâmica. Quando vocês decidiram abandonar o trabalho formal para se tornarem artistas independentes?

Patricia: A gente nem se intitula artista, sempre falamos que somos designers. Artista é um título muito alto. Vamos devagar. Um dia, um dia! (risos) Então, a gente já desenhava, mas só começamos a levar a sério quando vimos que não aguentávamos mais o trabalho em agências de publicidade e estúdios. Não tem nada a ver com a gente, é outro ritmo. Nunca criávamos o que realmente queríamos. Não fazia sentido desenvolver só propaganda. Tinha gente interessada e a gente pensou: ‘E se montarmos uma loja?’ Fizemos uma série de desenhos em preto e branco, aí foi! Um pessoal da Dinamarca pediu pra revender (os desenhos) na loja deles. A gente fez, basicamente, essa série pra eles. E pra gente também, claro. Começamos a vender lá e só depois no Brasil.

Como é ver o trabalho de vocês pelo mundo?

Priscila: É estranho. Para analisar um desenho, não é necessário entender a nossa língua (portuguesa), é algo totalmente visual. Sempre achamos que nosso trabalho iria pra qualquer canto. Mas é estranho por ele ter sido valorizado primeiro fora do país, e não na nossa terra. Demorou um pouquinho pra sermos notadas aqui. É cultural. A gente ainda tá tentando chegar a esse patamar, de a comunidade, como um todo, entender que arte pode fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa, que está disponível para todos e não somente para quem tem maior poder econômico.

Como é ser designer independente no Ceará?

Priscila: É necessário educar as pessoas que, ao se fazer uma identidade visual ou uma embalagem, você pode, sim, inserir uma ilustração. É tanto aprendizado quanto ensinamento diários. A gente vai falando aos poucos, pra pessoa entender nosso conceito. Mas é difícil. Em outros lugares, não, a gente é destaque pela ilustração.

Patricia: A gente não pensa só no Ceará. Para a criação, sim, já que imprimimos a nossa cara no que fazemos, mas não para vender nossas peças. A gente vende mais em São Paulo (através do site), por exemplo, do que em Fortaleza. Aqui temos menos oportunidades. É mesmo ainda difícil. Mas começa assim, né? A gente vê alguém desenvolvendo um trabalho legal e vê que é possível também! Isso é o que a gente quer: ser exemplo pra essa gente mais nova, pra que eles criem e sejam felizes.

Quais as inspirações?

Priscila: Acho que a gente sempre vai se inspirar no universo, nos mistérios que não conseguimos desvendar. Desde nós mesmas, quando, em questionamentos pessoais, não conseguimos nos entender, o ser humano, e a tudo que se refere ao cosmos. Tentamos incluir o misterioso no nosso trabalho, mas não de uma forma literal. A gente junta isso à figura feminina, dúvidas e questões que temos naquele momento, unidos ao que estamos lendo e pesquisando. Gosto de ler pra me estimular, mas aí eu misturo (a leitura) com essas coisas todas que eu não compreendo bem. Não consigo sair desses temas, não consigo.

Como vocês definiram esse estilo de traços leves, mas marcantes, usando poucos elementos na composição? 

Priscila: Acho que não vamos parar de definir um estilo tão cedo! Quem deve analisar nosso trabalho são os curadores, os espectadores, quem tá comprando, quem tá tentando interpretar o que foi produzido. Eu faço o que quero, e às vezes acontece de sair uma série de desenhos que tratam do mesmo assunto, e aí vou definindo um novo estilo, amadurecendo. Quem sabe com 80 anos esteja tudo definido?

Patricia: A gente tem o controle de querer melhorar o que já fazemos, aprendemos outras técnicas e exploramos isso.

Como funciona o trabalho de construção de uma peça?

Patricia: É uma bagunça às vezes, mas é legal, porque tenho a liberdade de dizer sem medo que tá uma droga, que tá preguiçoso e que podemos fazer melhor. Ou que está muito bom. Com pessoas de fora, a gente acaba sendo menos ríspida. Com a família, a cobrança é grande, pegamos pesado. (risos) Todo mundo passa por isso, né?

Para as próximas edições, os planos vão de palestras sobre mulheres e empreendedorismo, parcerias com coletivos feministas da cidade à promoção de oficinas. Alguém ainda duvida que o futuro é feminino?!