Desenroladas


Miss Plus Size Ceará 2016: Uma conversa sobre beleza e (quebra) de padrões com Giulianna Wanderley

Hoje a nossa tag #DesenroladaPlus traz uma conversa super bacana com Giulianna Wanderley, a Miss Plus Size Ceará 2016.

Com apenas um ano de carreira como modelo plus, ela fala do seu encantamento pelo mundo das passarelas – universo no qual nunca se imaginou construindo uma carreira. “Pelo meu tipo físico, já era um sonho distante, imagina ser miss?”, afirma Giulianna.

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O Miss Plus Size Ceará foi o primeiro concurso de miss que Giulianna teve a oportunidade de participar e levar a coroa.

Como funciona o concurso e qual o papel da Miss Plus Size?
O concurso se dá em alguns meses. São basicamente de 3/4 meses de divulgação pesada, de preparação, eventos, coquetéis, etc. Nossa visibilidade fica bem grande, nos dando oportunidade de aparecer para os lojistas e quem sabe ter uma nova oportunidade dentro do mercado Plus Size. Existem os patrocinadores do concurso, os quais promovem coquetéis e nós candidatas a Miss Ceará Plus Size, vamos fazer presença VIP na loja. Durante esse tempo, também temos oportunidade de vivenciar diversos momentos que talvez para algumas são raríssimos. Esse ano, a organizadora conseguiu fechar com o Beach Park e nós passamos um dia de muita diversão no maior parque da América Latina. Essas atividades, são as que nós chamamos de “compromisso de Miss”. O papel de uma Miss vai muito além de representar apenas a beleza Plus Size do nosso Estado. Eu tomei pra mim, uma causa que merece ser abraçada, e que ainda há muito o que evoluir. Nós sabemos que mercado Plus Size é um dos mercados que mais crescem, mas também temos a ciência do quão ainda é deficiente. Digo pra todas as pessoas que o concurso de Miss, é além de beleza, uma oportunidade de mostrar para um número maior de pessoas que não existe um padrão de beleza. Levantar a bandeira da mulher independente do seu corpo, levar autoestima e alegria para todas as pessoas que se sentem oprimidas por não seguirem ou que não se encaixam em um padrão imposto pela sociedade.

Hoje, entre tantos padrões, é muito bom ver o plus size sendo reconhecido de tantas formas. No entanto eu, como plus size, vejo que as pessoas ainda têm medo da palavra “gorda” e a encaram como uma ofensa. Você, particularmente, tem medo dessa palavra?
Eu, hoje não sinto mais essa palavra como uma ofensa. As pessoas que sempre utilizam a palavra gorda no sentido pejorativo. No intuito de magoar ou ofender alguma pessoa. Na minha época de colégio, sim, eu sentia que as pessoas quando me xingavam, usavam esse termo para te tar me ofender ou diminuir. Mas isso nunca funcionou comigo. No fundo, me incomodava, mas como eu sempre me amei e me aceitei do jeito que sou, eu esquecia e passava por cima.Porém, eu vejo que as coisas ainda não mudaram tanto assim. Algumas mulheres tomam essa palavra como outra qualquer, já outras, sentem-se ofendidas quando as chamam de gorda. Mas eu digo que isso vai muito do estágio que você se encontra. Eu, por exemplo, sou bem resolvida com o meu corpo, não acho que vestir um manequim a mais me torna menos atraente do que outras mulheres, então eu não me incomodo quando usam essa palavra, mas sempre tomo cuidado quando vou lidar com outras pessoas.

Você já sofreu algum tipo de preconceito? Já se incomodou com o seu peso e número do manequim?
Na época do colégio, eu sentia sim uma diferença entre mim e as colegas de sala. Eram poucas meninas como eu. Aliás, lembro-me bem, eram 2. Nunca fomos alvo de paquera, ou até mesmo de elogios. Mas eu sempre fui uma criança tão divertida e proativa, que isso sempre se tornou muito pequeno pra mim. Mas sempre que havia aquela discussão de criança, as pessoas me xingavam logo de “gorda”, “saco de areia”, “baleia”, etc. Já na minha adolescência, eu percebi que aquelas ofensas, vinham de pessoas que gostavam de diminuir alguém para conseguir se sentir superior. E mais ainda eu comecei a me aceitar. Sempre pratiquei esporte, passei minha infância dançando Ballet, na adolescência eu era da seleção de vôlei feminino do Colégio… sempre fui muito bem resolvida.Às vezes que tentei fazer alguma dieta foi por causa da minha mãe que se incomodava com que os outros diziam, e por medo de me ver sofrer algum tipo de preconceito, pedia para que eu começasse. Mas quando iniciei minha fase adulta, eu olhei pra ela e disse que me amava assim e que eu era feliz assim, gorda! Logo em seguida comecei a trabalhar como modelo e ela abraçou a causa junto comigo.

Não é todo mundo que sabe que o nosso peso, mesmo não estando nos padrões “magros” e sendo plus size, não quer dizer que não somos saudáveis, né? Então, como é a sua rotina: você se exercita, como é sua alimentação, cuidados com o corpo?
Como modelo e mulher, eu me preocupo com minha aparência, procuro me alimentar bem, não ter aquela barriguinha saliente, fazer procedimentos estéticos para diminuir a celulite, etc. Sobre a alimentação, eu como de tudo! Tudo mesmo. Da fruta e legumes ao doce. Acho que o problema sempre está no exagero. Esse é um novo tabu que eu pretendo esclarecer, ser gorda, não significa que não somos saudáveis. O movimento Plus Size não faz apologia à gordura! Ele defende corpos diferentes, valorização da mulher e das curvas naturais. Eu sempre amei dançar e praticar esportes. Não posso negar que não gosto de musculação, mas sempre estou de frente pra TV dançando. Gosto bastante de dançar vários gêneros musicais (axé, swingueira, funk, Samba, salsa, forro,etc). Procuro auxiliar meus tratamentos estéticos é uma boa alimentação para ficar cada vez melhor. Digo muito para as pessoas que me perguntam ” pra que você faz tratamento estético se você é modelo Plus?” E eu respondo: justamente por esse fato! Sou modelo, e as lojas não querem uma modelo com a barriga saliente e as pernas cheias de celulite. Estética não é apenas uma vaidade, também é saúde. Quando estou muito acima do peso, também procuro emagrecer pra não ocasionar problemas de saúde. Sempre faço meus exames e nunca deu nada alterado, isso é o que importa pra mim.

Qual a sua opinião sobre os padrões de corpo e de beleza também que nos são impostos? Você acha que uma miss plus size vem para quebrar paradigmas?
Dizem que o Plus Size veio para quebrar padrões e acabou impondo padrões de que toda mulher deve ser gorda e se aceitar do jeito que é. Mas as pessoas não entendem que o que nós queremos é o bem estar e a autoestima, independente do seu manequim, se você veste 34 ou 52, você é linda da forma que é. O Miss, ele veio sim pra quebrar esses tabus, pois quando perguntam: “tem que vestir quanto pra ser miss?”. O mercado Plus Size tem o tamanho 44 como referência. Então, se você veste a partir do 44 você já é considerada uma Plus Size. E não queremos estabelecer uma manequim X, pois estaríamos padronizando novamente uma nova categoria. E não é isso que queremos.

Ser Miss Plus Size é motivo de orgulho ou a gente ainda tem batalhas para vencer no caminho?
Ser Miss é motivo de orgulho sim!Afinal, esse peso de ser Miss, tem mais que um nome, uma faixa e uma coroa. Ser Miss é ter a oportunidade de resgatar a autoestima de centenas de mulheres que se sentem diminuídas por não está no padrão. É ter o prazer de escutar e ler várias pessoas dizendo que você é a inspiração delas. Ler relatos de vidas que mudaram a partir de um vídeo, foto, depoimento ou ação que você fez.É literalmente mudar pensamentos e até mesmo vidas. A minha mudou e a de qualquer pessoa pode mudar. Mas a batalha sempre continua. Precisamos de força, de valorização e de vez. Porque voz e vontade, nós já temos.