Desenroladas


Cinema: Cearense lança documentário emocionante sobre mulheres trans no sistema prisional

Mulher. Trans. Presa. Cada uma dessas palavras carrega estigmas e dores que muitas vezes são invisibilizados na mídia e na sociedade. Agora junte todas essas palavras numa mesma pessoa e tente imaginar quantas barreiras ela teve e tem que atravessar diariamente. É este o recorte do documentário “Close“, dirigido pela jornalista e cineasta Rosane Gurgel, que retrata internos GBT (gays, bissexuais, travestis) no sistema prisional cearense. O filme será lançado no Cinema do Dragão do Mar – Fundação Joaquim Nabuco, em Fortaleza, nesta segunda-feira (30) de janeiro, às 18h, em comemoração ao Dia da Visibilidade Trans (29/01).

O curta-metragem traz depoimentos de quatro personagens (Jéssica, Suyanne, Bruna e Nathália) que estão detidas na Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, localizada em Aquiraz, Região Metropolitana de Fortaleza, presídio destinado para presos GBT, idosos, deficientes físicos e condenados pela Lei Maria da Penha.

A exibição, com entrada franca, terá sequência de debate com o advogado e ex-secretário da Justiça e Cidadania do Ceará (Sejus), Hélio Leitão, com o presidente da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine) e repórter cultural do Jornal Diário do Nordeste, Diego Benevides, com a secretária da Secretaria da Sejus, Socorro França, e com a coordenadora política do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) e graduanda em Comunicação Social, Dediane Souza. Além de contar com a presença de uma das personagens do filme a egressa do sistema penitenciário, Bruna Mota (nome social).

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Acreditamos no diálogo e na visibilidade enquanto poderosas fontes de transformação social e convidamos você, nossa leitora, a ler nosso papo com a Rosane Gurgel e também a assistir o filme (que ficará em cartaz no Cinema Dragão do Mar).

Vamos lá?

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Primeiro, queremos parabenizá-la por este trabalho. Sabemos o quanto falar de vivência trans ainda é um tabu em nossa sociedade. Quando o recorte se torna as mulheres trans em situação de privação de liberdade, a invisibilidade aumenta. Como surgiu a vontade de fazer o documentário “Close”?

A ideia surgiu quando fui fazer uma pesquisa sobre fanzines. O artigo da minha pós graduação em Gestão e Assessoria de Comunicação foi sobre “O fanzine como ferramenta de comunicação e visibilidade para a população LGBT”. Então, fui conhecer o fanzine “Só Babado” produzido pelas internas travestis da unidade prisional que, na época, estavam presas na Casa de Privação Provisória Jucá Neto (CPPL III). A cada oportunidade que tive de conversar com elas, ficava mais interessada em saber mais e mostrar à sociedade o tabu delas dentro da prisão.

Qual foi a primeira reação das internas ao saberem do documentário? Você enfrentou alguma resistência, do sistema ou das próprias entrevistadas, ao longo do processo de filmagem?

Há dificuldades por ser um filme dentro de um presídio. Temos sempre que respeitar as regras e o cotidiano dos internos. Mas, apesar disso, fomos sempre bem tratados e a diretoria sempre nos auxiliou. Fizemos as gravações em dois dias durante duas manhãs. Elas ficaram super felizes e que finalmente teriam a visibilidade que tanto queriam. Até ajudaram no roteiro! (risos) A assistente social me falou que elas fizeram um roteiro próprio e, no dia da gravação, já sabiam as roupas e maquiagens que iam usar. Finalmente estavam se sentindo protagonistas de suas vidas.

E na comunidade trans, você percebeu alguma resistência? Já vimos algumas vertentes do movimento que são contrárias à ideia de pessoas “CIS” tratando do assunto por não terem a vivência trans.

Felizmente na comunidade trans não senti nenhuma resistência – pelo menos até agora. As coordenadorias LGBT e a comunidade em si estão me dando muito apoio.

Como você chegou aos nomes da Bruna, Linda, Jéssica e Nathália, as protagonistas do filme?

Conheci as meninas através do fanzine “Só Babado”. Antes, em vez da Bruna, ia ser outra interna, a Paulinha. Foi por ela (Paulinha) que começaram algumas das principais conquistas das meninas dentro do sistema penitenciário cearense. Porém, ela decidiu ser transferida para outro presídio para ficar com seu companheiro. E então conheci a Bruna e a Suyanne (cujo nome artístico é Linda Moura) que haviam acabado de entrar na unidade. Conversei um pouco com elas e logo já quis colocá-las no filme. A Jéssica e a Nathália já havia decidido desde a outra unidade onde elas estavam (que era na CPPL III). No filme há a personalidade de cada uma delas.

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Pelo trailer, notamos que os assuntos abordados no documentário são muito emocionais, íntimos. Ao longo do processo de conversa com as internas, o que mais te tocou?

O que mais me tocou foram os motivos pelos quais elas foram presas: a ganância pela beleza. Todas queriam dinheiro para colocar silicone. Fiquei dias pensando coisas do tipo: “meu Deus, tudo isso por conta do silicone!” e até hoje fico pensando nisso, sem saber direito até o que escrever. Porque é algo tão inacreditável que fico sem palavras.

Como você percebe a representatividade da comunidade trans na sociedade atualmente? Acredita que através da mídia, da moda e da arte (como propagandas e capas de revista com mulheres trans, o grupo de teatro As Travestidas, o seu documentário, modelos e cantoras fazendo transição, etc) está havendo uma representatividade maior e, consequentemente, uma abertura de consciência das pessoas em geral?

Acho importante divulgar um assunto pouco explorado e comentado não só pela mídia, mas pela sociedade também. Precisamos abordar mais sobre os direitos LGBT para pessoas que estão em liberdade, mas também para as que estão reclusas no sistema penal, principalmente por serem as mais vulneráveis da população prisional. Acredito  que há mais espaço para discutir as questões LGBT, principalmente por conta dessas pessoas que estão se expondo mais em prol da liberdade de gênero. Porém, há ainda muito a se discutir. Existe muito preconceito bobo de pessoas que não se dão o trabalho de conhecer mais sobre essa questão.

Na última edição da SPFW, o estilista Ronaldo Fraga fez história com um casting de modelos totalmente formado por transgêneros. O que você achou dessa atitude?

Achei incrível! Foi lacração! Precisamos de mais atitudes e de mais coragem como a dele. O preconceito tem que acabar na marra mesmo, colocando na cabeça daquelas pessoas a visibilidade merecida ao público LGBT.

*Sobre o desfile: https://www.instagram.com/p/BMCmEWzhEeZ/

Mesmo com iniciativas como esta, infelizmente ainda existe muito preconceito/segregação. Na sua opinião, quais as principais mudanças que precisam ocorrer para a comunidade trans, politicamente, para termos uma sociedade mais igualitária?

Acho que deve partir do próprio público LGBT. Vejo que ainda há muito preconceito e segregação entre eles. Acho que devemos colocar na cabeça que somos para somar e não pra dividir! Continuar com ações para que todos possam participar também é uma delas. Sem essa separação de que é “para héteros” e “para gays”.

Qual o seu maior objetivo com a realização do documentário “Close”?

Meu objetivo é fazer com que a sociedade compreenda melhor os direitos do público LGBT dentro das unidades prisionais. E o quão importante é fazer presídios específicos para o público LGBT, pois eles são os mais vulneráveis dentro do sistema. Acho que as pessoas que verem o documentário vão pensar melhor antes de julgarem o motivo pelo qual elas estão lá e porquê elas precisam de uma unidade especifica.

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SERVIÇO
Lançamento do documentário Close

Quando: segunda, 30, às 18 horas
Onde: Cinema do Dragão do Mar – Fundação Joaquim Nabuco (R. Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema)

Gratuito