Desenroladas


2017 e uma nova Globeleza

Eu não achei que viveria para ver a Globeleza ser reinventada e ressignificada. Mas que bom que vivi e estou vendo!

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É o seguinte: a vinheta da Globo  para o Carnaval trouxe, durante 30 anos, uma mulher negra, nua e sambando. A chamada “Globeleza” durante todos esses anos era apresentada como representação da mulher brasileira, cheia de “gingado” e “sensualidade”. Tudo errado desde sempre! Mas quem imaginou que chegaríamos ao tempo em que essa mulher seria apresentada de uma outra maneira?

Chegamos. Em 2017, a Globo parece ter dado ouvidos aos novos tempos e, principalmente, ao movimento feminista que tanto questionou essas vinhetas. “É necessário entender o porquê de se criticar a Globeleza. Não é pela nudez em si, tampouco por quem desempenha esse papel. Não temos problema algum com a sensualidade, o problema é somente nos confinar a esses lugares negando nossa humanidade, multiplicidade e complexidade. Quando reduzimos seres humanos somente a determinados papéis e lugares, se está retirando nossa humanidade e nos transformando em objetos”, disse Djamila Ribeiro, mestre em filosofia política, em um post no site Azmina em que dizia “nós, as mulheres negras, queremos o fim da Globeleza”.

Em 2016, também bombou pela internet um meme do “Globelezo“, em que a galera do Quadrinhos Ácidos questionou: “E se o Carnaval fosse ao contrário” e produziu um vídeo de animação com um homem dançando nu tal qual o que era visto com a mulher na TV. O bom humor levava à reflexão: porque a sociedade achava tão natural uma mulher nua sambando na TV e se incomodava quando um homem era posto no mesmo papel?

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Além da objetificação, as vinhetas do Carnaval da Globo somente “contemplavam” o Carnaval carioca, das escolas de samba, e ignorava todas as outras manifestações que acontecem por todo o País.

Pois bem, dito isso, chega a vinheta de 2017. A vinheta do Carnaval Globeleza deste ano, que começou a ser exibida nesta segunda-feira (9), se mostra como uma celebração aos vários ritmos do carnaval no país. Frevo, maracatu, axé, bumba meu boi e a festa tradicional de avenida estão representados no vídeo.

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Cinco dançarinos acompanham Erika Moura em uma coreografia que passeia pelos gêneros tradicionais de diferentes regiões do Brasil, com figurinos específicos para cada um deles, criados por Rita Comparato. Ou seja, Erika aparece não mais com pinturas corporais, mas com figurinos caprichados e lindos.

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Desde que entrou no ar, a vinheta vem gerando diversos comentários e posts elogiando a nova postura. Afinal, não era tão óbvio que deveria ser assim? Tudo bem que demorou, mas finalmente chegou esse dia! Aliás, o site Azmina também já publicou sobre o vídeo. ‘”Mudou que a partir de agora, uma jovem de 16 anos vai poder ver que dançar como Globeleza é um trabalho que não expõe o seu corpo de forma cruel. Todos os envolvidos estão fazendo seu trabalho. Nenhum estereótipo. Apenas se veem profissionais exercendo suas funções com muita competência. E eu continuo me perguntando: não é assim que deveria ser? As oportunidades não deveriam existir e serem iguais para que todos expressem seu profissionalismo sem exotização e exposição moral? Começamos 2017 com mudanças positivas ao menos quando se refere ao Carnaval”, comenta a autora, Juliana Luna.

Então, que venha o Carnaval!