Desenroladas


SHWE – Moda, Empoderamento Feminino e Histórias na África

Não é de hoje que nós (e tantos outros meios de comunicação de moda) estamos falando sobre uma nova relação de consumo. Aquela que se preocupa com a origem de cada produto, com a que respeita os direitos do trabalhador, com a que valoriza o mercado local. E foi então com uma super satisfação que recebemos o relato da Júlia Franco, que abandonou o “glamouroso” mercado da moda em milão e apostou em um novo projeto na África do Sul que aposta em três bases: Moda, empoderamento de mulheres e dar voz à gerações e culturas que já não são ouvidas (Fashion, People, Stories).

A gente até poderia editar, mas o relato da Júlia é tão rico e inspirador, que em vez de produzir qualquer texto, resolvemos publicá-lo na íntegra. Então, simbora que tem textão e tem conteúdo (vai valer a pena chegar ao final):

SHWE 8

“A história é meio longa mas amo muito contá-la. Acho que  hoje sei bem o que é amor pelo trabalho, sabe?

Bom, eu morava em Milão e estava trabalhando como PR para o Roberto Cavalli, e aquela história de moda consciente não estava tão presente no meu dia a dia (“Índia? Não, não. A gente fabrica em Firenze, onde a mão de obra está morrendo. Por isso, estamos até fazendo um bem para a humanidade. Aumentamos o desejo de consumo e a renda de artesãos aqui e até na Índia. Sim, de nada”, quanta bobagem…).

Mas a vida dá aquelas reviravoltas maravilhosas que te faz perder o chão. Me apaixonei por um guitarrista, da África do Sul, pedi demissão no meu emprego e vim correndo para Durban. Com o país, meus conceitos de vida também mudaram. Apesar de ser um país em desenvolvimento e termos uma vida confortável, a desigualdade reina. Sabe você ir ao supermercado ao meio-dia, comprar uma salada, batata-frita, Nutella e um belo de um peixe fresquinho e na hora de pagar você morre de vergonha porque o cara na sua frente está contando as moedas para pagar o pão de forma e um litro de leite? Pois é, isso aconteceu comigo há uma hora. Sempre acontece. Sempre.

Junta tudo isso com os ataques xenófobos que aconteceram aqui em Durban (onde os zulus mataram e expulsaram milhares de imigrantes, depois que o Rei Zulu veio à TV dizer que o problema da falta de empregos era porque a África do Sul recebia muito imigrante), com notícias do Sírios sofrendo por não ter para onde ir, nem como sustentar suas famílias e a consciência batendo na porta (poxa, se eu tive a oportunidade de estudar em uma ótima escola de Mkt de Moda, pude trabalhar e conhecer designers e profissionais  que fazem tudo acontecer, porque não usar isso a favor de mais pessoas. E sim, eu baixei True Cost. E depois de chorar por horas, entrei em contato com eles e acabei pagando o valor do meu aluguel para a causa. Talvez por vergonha ou tentando limpar minha consciência).

Desde que cheguei aqui (há quase três anos), tenho dado consultoria e trabalho em diversos trabalhos sociais. Mas tem um, que realmente mora dentro do meu coração, e tenho tentado viabiliza-lo há quase 2 anos (não só em grana mas a questão da qualidade era um ponto que sempre empacava).

SHWE 2

Depois de quase 4 meses de muito trabalho, estamos prestes a lançar o projeto que está mudando muitas vidas e fazendo com que eu acorde de manhã com o maior pique do mundo. O programa tem três bases: Moda, empoderamento de mulheres e dar voz à gerações e culturas que já não são ouvidas (Fashion, People, Stories). De um lado temos 2 professoras de costuras ensinando mulheres que querem mudar de situação e aprender a costurar, tricotar, fazer crochet, ou qualquer coisa que preferirem. Assim elas podem aprender uma profissão e sustentar suas famílias. Lá, damos o material, treinamento e todo o apoio educacional para que possam abrir seu próprio negócio quando estiverem preparadas. Do outro lado, estão as senhorinhas que moram no asilo municipal. Elas tricotam, fazem crochet e bordados enquanto conversam e tomam o chá da tarde.

Com elas, montamos (digo no plural porque tem muita gente envolvida, inclusive um desgner que é PhD em Educação) uma coleção com tecidos locais e mão de obra 100% consciente, que se chama Shwe – The Wearable Library. “Shwe” porque o nome do tecido tradicional da África do Sul e Lesotho é o Shweshwe e o “The Wearable Library” veio porque acreditamos que cada peça vem com sua própria história e com a história de quem desenvolveu, cortou, costurou, tricotou… e é isso que queremos transmitir com cada peça.

A ideia é crescer e poder ajudar mais e mais mulheres a se sustentarem, mudarem de vida e serem ouvidas”.

SHWE 3Para saber mais sobre o The Wearable Library, basta acessar a loja on line.