Desenroladas


Cara Gente Branca: Porquê o Brasil está falando tão pouco da série da Netflix sobre racismo?

Preciso começar esse texto dizendo que sou uma mulher de cor parda com descendência indígena, africana, portuguesa e espanhola e que, não raro, sou socialmente descrita como “branca”, mesmo me declarando oficialmente como parda.  Apesar dos olhos puxados, da pele morena, do cabelo naturalmente preto e da boca grande, já várias vezes fui chamada de “branca” como se isso fosse um elogio. Na verdade, não é um elogio, nem é ofensa, mas já diz muito sobre como o nosso país é preconceituoso e ignorante em relação à pluralidade racial da maioria da sua população (algo recorrente em países que foram colonizados). Porém, nem de longe eu senti ou sinto na pele o que passa a grande parcela de brasileiros que são negros sociais (não só se identificam com a etnia, como são reconhecidos por outras pessoas como negros). Por isso, é necessário iniciar essa conversa com você, leitora, fazendo o que toda pessoa que vai falar sobre um assunto que não vivencia de fato deveria fazer: assumindo meu lugar de privilégio, mesmo que não me orgulhe ou não tire vantagem intencional desta posição.

Agora sim. Vamos lá.

“Cara Gente Branca” foi renovada para sua segunda temporada e… não vi ninguém comemorando. Aliás, vi pouquíssimos sites de cultura pop/entretenimento sequer dando a notícia. Algo bem incomum, já que as produções originais da Netflix costumam gerar muito alarde no público e na imprensa especializada. O silêncio relacionado à esta série, infelizmente, não é novidade.

Em abril deste ano, diversos seriados estrearam na Netflix, como anunciamos aqui no Desenroladas. Dentre eles, alguns ganharam destaque na mídia e viraram temas de discussão nas redes sociais pelas temáticas apresentadas. “13 Reasons Why” trata de bullying na escola, violência contra a mulher e tem foco no público adolescente. “Nasty Gal” mostra a trajetória de uma empreendedora de ética duvidosa pelo mundo dos negócios de moda e foi mais metralhada que aplaudida (também falamos disso aqui) – tanto que foi cancelada.  “Get Down”, estreou sua segunda (e última) temporada e traz, de forma ficcional, o nascimento da cultura hip hop no gueto novaiorquino com seus MCs, DJs, graffiteiros e breakdancers. Porém, uma série foi recebida com silêncio pela audiência: “Dear White People” (“Cara Gente Branca”).

Derivado de um filme homônimo lançado em 2014, seu enredo aborda as questões raciais enraizadas na cultura norte-americana (muito similares às do Brasil) através do cotidiano de estudantes universitários negros numa universidade cuja maioria é branca. A protagonista é Samantha White (foto acima), ativista e estudante inter-racial, que usa o seu programa de rádio “Cara Gente Branca” para fazer denúncias de racismo no campus. Blackface, apropriação cultural, desigualdade social, falta de representatividade negra (na política, na mídia e em diversos outros espaços importantes), violência policial, #BlackLivesMatter, Panteras Negras (dentre outras referências históricas de peso)… tem tudo isso e muito mais num roteiro inteligente, informativo e ativista, mas regado com boas doses de humor. Com a crescente onda de engajamento, trazida pela Geração Y, era de se esperar que ele fosse virar um assunto comentadíssimo nas redes sociais e rodas de conversa offline. Porquê então este seriado com ótima produção e um tema que precisa ser tratado com um urgência no Brasil encontrou tão pouco eco em terra tupiniquins? Nos EUA e na Europa o programa foi aclamado pela crítica. Porém, ele também foi tido como “racista às avessas” por algumas pessoas brancas.

Racismo reverso não existe, tá migas?

Quem se sente ofendido com um recorte ficcional de uma luta real (que é inclusive muito maior do que a contemplada no seriado) tá fazendo uma distorção dos fatos. Então, vamos a eles:

  • Segundo o levantamento da ONU de 2016, das 16,2 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza no país, 70,8% deles são afro-brasileiros. Os salários médios dos negros no Brasil são 2,4 vezes mais baixos que o dos brancos e 80% dos analfabetos brasileiros são negros.
  • Também de acordo com a ONU, dos 56 mil homicídios no Brasil por ano, 30 mil envolveram pessoas de 15 a 29 anos. Desses, 77% eram garotos negros.
  • No mercado de trabalho em regiões metropolitanas de grandes cidades brasileiras (Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo), o valor recebido pelos negros para cada hora trabalhada corresponde a 77,5% do que os brancos recebem, o que significa uma diferença de mais de 20%. Do total de desempregados em três das cidades estudadas, 80% eram negros.
  • Entre as seis categorias de atividades que o IBGE considera, os negros só são maioria no setor de construção (987 empregados contra 716 brancos) e nos serviços domésticos (846 contra 540), áreas que historicamente pagam menores salários e demandam um grau de instrução mais baixo.
  • Segundo a Agência Patrícia Galvão, no Dossiê Violência Contra as Mulheres, as negras representam 59,4%  das mulheres vítimas de violência doméstica, 65,9% das vítimas de violência obstetrícia e 68,8% das mulheres mortas por agressão.

É claro que “Cara Gente Branca” não está isento de problemáticas. Como todo filme, vídeo, reportagem, música, etc, ele apresenta uma visão, uma escolha, um recorte da realidade dentro de tantos outros possíveis. Só pela história ter uma universidade como pano de fundo, ela já mostra um grupo de pessoas que tem o privilégio do acesso ao ensino superior, em detrimento de tantas outras pessoas que não o tem. Existem estereótipos na narrativa? Sim. Todos os negros ou brancos ou asiáticos são como os retratados no seriado? Claro que não. Este foi, inclusive, um dos pontos que mais magoou o coraçãozinho de quem se rebelou contra “Cara Gente Branca”. O YouTube é um prato cheio para vídeos mostrando o ressentimento de homens cis brancos (os seres mais privilegiados da terra, apenas) que ficaram #xatyados porque o seriado mostra alguns (poucos) homens brancos como republicanos, elitistas, preconceituosos e coxinhas. Me poupem.

Dói ser deixado de lado, se sentir estereotipado e inferiorizado, né gente? E é justamente por isso que “Cara Gente Branca” é relevante, pois consegue dar representatividade a quem raramente é protagonista ou maioria em produções de massa e também por fazer inúmeras brancos se sentirem deixados “do lado de fora da festa”. Sabe porque isso é tão importante? Porque enquanto tem gente que sente isso apenas vendo um seriado, existem inúmeras outras pessoas que têm essa sensação todos os dias, passando de geração por geração e que não conseguem enxergar a igualdade racial chegando tão cedo.

Pode ser excesso de otimismo da minha parte, mas acredito muito no poder transformador de boas histórias. Talvez assim uma parte da audiência consiga ter empatia por quem se sente diariamente marginalizado em nossa sociedade. Cara gente branca: aceita que dói menos.

Fotos: Divulgação/Netflix