Desenroladas


Daniel Peixoto volta à Fortaleza com o projeto Iracema Som Sistema

Daniel Peixoto é um artista único e vanguardista no Ceará. Atraído pelo diferente e pelo novo, ele se envolveu com arte e moda desde cedo, como a tendência genderless, mesmo antes de haver um grande debate sobre isso. Em 2005, formou o Montage ao lado do DJ Leco Jucá, trazendo até então músicas produzidas em um estilo bem diferente do que costumávamos ver surgir no Brasil: electro-punk. Em 2011, Daniel lançou seu primeiro disco solo, Mastigando Humanos.

Depois de 12 anos em São Paulo e uma temporada em Amsterdã, Daniel encontra-se atualmente em Fortaleza, pois teve seu projeto Iracema Som Sistema aceito nos Laboratórios de Criação do Porto Iracema das Artes.  Quer saber do que se trata? Conversamos com ele para saber um pouco melhor sobre essa nova criação artística.

Você acabou de ser aceito no Porto Iracema das Artes. O que é o projeto?

Daniel: Bom, meu projeto é para formar um soundsystem. Atualmente eu me apresento com um formato bem rock’n’roll, que é baixo, bateria e guitarra. Soundsystem são aqueles aparelhões de som que tem na Jamaica e que o funk carioca usa, que são aqueles paredões. E aí, dessa vez, eu quero trabalhar só com as máquinas da música eletrônica. Então, o projeto se chama Iracema Som Sistema, para poder fazer um soundsystem desse com um repertório que eu já faço, que é a música eletro, mais com um pouco de reggae e um pouco de funk, com tudo que está acoplado nessa ideia de um som sistema mesmo. Estão trabalhando comigo o Paulo Tomé, que é do Wide Open Mind, e o Ivan Timbó, ambos produtores e multi instrumentistas. E aí vamos ter essa imersão agora por dez meses, com um tutor que vem de fora. Sugerimos alguns nomes, mas ainda não foi definido [quem será].

Mas aí vai ter alguma coisa de rock ou vai focar realmente em algo completamente diferente?

D: Não, o rock vai ficar um pouco de lado dessa vez. A gente pode até usar um pouco de guitarra e tal… Mas só em não ter a bateria, já tira um pouco daquela coisa. Mas a atitude e a energia rock’n’roll sempre vão estar, porque é a minha vibe. Mas, sonoramente, vai por outros caminhos.

Você aplicou pro Porto Iracema das Artes por querer voltar à Fortaleza? Já que o nome tem Iracema, então vai ter muita influência da cidade?

D: Eu fiz dois discos que passeiam por essa estética do tropical bass, mas que foram gravados por Rio de Janeiro/São Paulo. Então, por mais que tenha esse apelo de eu ser cearense e levantar essa bandeira por onde eu passo, acaba que tem uma identidade de onde você está gravando. E no meu projeto, é preciso ter essa imersão com a cidade para poder fazer algo com a cara que eu quero. E, de um tempo pra cá, com a escola O Porto Iracema das Artes e o maior bloco de carnaval daqui foi o Iracema Bode Beat, então as pessoas estão voltando um pouco para essa cultura, e eu estava um pouco desconectado dessa cultura por estar morando há tanto tempo fora. Para fazer um produto com a cara do que eu quero, eu preciso estar aqui. E quero botar um pouco de referências das nossas músicas, sem os clichês, mas de repente fazer um cover de forró das antigas ou do Belchior, que perdemos recentemente. Queremos que seja algo super praiano e super Fortaleza, mas pra música eletrônica. Temos nosso reggae, nosso rock, nosso forró, mas a nossa música eletrônica não tem assim uma identidade forte.

Voltando às épocas do Montage, você acha que o cenário musical era bem diferente do que está agora?

D: Eu acho que pra música nacional, as coisas estão um pouco mais difíceis, porque o público consumidor tem importado música e consumido só o que é trendy. Acho que na época do Montage, por mais que fosse difícil também, as pessoas tinham mais curiosidade para saber o que estava sendo produzido no Brasil. Na época que o Montage estourou, tinha o Cansei de Ser Sexy, Bonde do Rolê, Boss in Drama. Tinha uma série de artistas daqui que caminharam juntos. Mas hoje, as pessoas importam muito. Tanto que os artistas nacionais que fazem sucesso hoje têm um diálogo com a música estrangeira, como a Anitta e a Karol Konká, que é uma artista maravilhosa mas que tem uma referência do hip hop americano. Mas, por outro lado, a música está muito mais democrática. Você não precisa mais comprar um disco ou pagar pra fazer um download, hoje qualquer pessoa pode ouvir música em qualquer plataforma de graça ou não.

Agora, um bate-bola rápido para descontrair. Último livro que leu?

D: Hmm.. Esmeralda: Por Que Não Dancei. É da Esmeralda Ortiz, uma ex-menina de rua e viciada em crack, que escreveu um livro de memórias e hoje é militante da causa.

Último filme preferido?

Vi um documentários esses dias que achei super bonito e que é um filme belíssimo, que eu nunca tinha assistido. Se chama Paris is Burning, que é o começo da cultura de bailes em Nova York, também fala da questão de identidade de gênero e todo o fundamento para o programa da RuPaul. Esse filme me tocou bastante.

Última música preferida, ou, a música do momento na tua vida?

Que difícil… Pode ser uma minha? [Risos]. “Permitido”, música minha, do meu disco novo e que eu tenho orgulho de ter feito. Abre meu disco e abre meus shows, e foi com ela que eu passei na audição do Porto Iracema das Artes.

 

Plus: Disco MASSA (2017)

Depois de 6 anos, Daniel traz um novo disco: Massa. Lançado no último mês de maio, o álbum traz 13 faixas com referências da música eletrônica, samba, reggae, rock e MPB. Está disponível para ouvir aqui.