Desenroladas


Papo de mana: Sobre empoderamento negro, machismo e o racismo velado no Brasil

Me chamo Izabel Accioly e tenho 29 anos. Sou estudante de Ciências Sociais, ligada ao Laboratório de Estudos da Violência e bolsista de Iniciação Científica – o que me deixa bem perto das questões que pesquiso: a situação prisional do Estado e o fortalecimento do crime organizado em Fortaleza.

Devido ao trabalho, costumo frequentar presídios e comunidades menos privilegiadas. Esses ambientes costumam não ser tão seguros e, algumas vezes, acontecem momentos em que, ao me apresentar como pesquisadora, como estudante da UFC, percebo uma certa desconfiança. Acredito que seja por uma combinação de fatores: ser mulher e negra. É interessante notar que, muitas vezes, essa desconfiança da minha capacidade parte inclusive de pessoas negras.

No Brasil, somente 26% dos pesquisadores do CNPq são negros. Ou seja, quem faz a ciência acontecer ainda é, majoritariamente, branco!

 

Sinto o preconceito também quando vou à congressos/encontros apresentar trabalhos que são resultados dessas pesquisas e minha fala é considerada pouco relevante em comparação a outros estudantes com formação igual ou parecida com a minha. Percebo isso claramente em expressões faciais, “torcidas de nariz” e até mesmo com pessoas se retirando das salas. Também acontece de ouvirem minha fala e, ao final, questionarem se eu estive realmente no lugar ou me recomendarem textos básicos da minha área (pressupondo que eu não realizei essas leituras) ou perguntarem se eu não tinha dinheiro pra arrumar o cabelo ou de chamar atenção no espaço apenas pela minha presença (sendo a única negra do auditório) ou, em outros estados, indagarem se sou realmente cearense, pois “no Ceará não tem negro”.

Vivemos séculos de opressão. As marcas da escravidão não ficaram apenas no corpo de quem foi açoitado nos pelourinhos, mas ultrapassou os tempos e ainda molesta quem tem a pele escura, quem vê a população negra ser relegada aos piores lugares para viver, trabalhar, estudar (isso quando conseguem)… É só observar as estatísticas sobre acesso a educação, violência, a formação da população carcerária e perceber que a maioria das pessoas que estão em situação de vulnerabilidade são negras. Diante desse panorama, como se identificar como negra/negro? Como acolher para si uma identidade que é negativa? É devido a isso que muitas mulheres e homens negros passam por processos de branqueamento, que escondem seus traços negros como alisar o cabelo crespo ou utilizar truques de maquiagem para afilar o nariz. A estética negra não era valorizada até pouco tempo atrás. Só agora percebo um esforço para essa identidade ser reconhecida como positiva. Daí o uso de turbantes e a aceitação de um cabelo natural, dentre outros aspectos nos quais há empoderamento através da estética. Esse empoderamento era uma das estratégias usadas pelos Panteras Negras (partido político socialista negro) nos EUA e a valorização do cabelo afro e de seus traços. Lá também é bem presente a cultura dos relacionamentos afro-centrados (aqueles em que ambos/ambas são negros).

 

 

No Brasil, as pessoas não compreendem que tem uma dívida histórica com a parcela negra da população. Muitos, infelizmente, não entendem as ações afirmativas de cotas, por exemplo. Há um discurso de que quem quer, vai lá e consegue. Esse papo de meritocracia serve uma elite branca que quer fazer a parcela da população negra crer que não tem moradia digna, não tem estudo, não tem acesso a saúde porque “não se esforçou”.

São poucos os que realmente têm interesse em deixar de reproduzir racismo. Um exemplo recente é o clipe “Você Não Presta”, da Mallu Magalhães. Apesar de ser bem evidente, muitas pessoas não conseguiram ver racismo nessas imagens. Esse discurso de dominação, de abafar, de pôr panos quentes é tão latente, que ele molda nosso olhar e, mesmo que vejamos no clipe a Mallu aparecer em primeiro plano, limpa e bem vestida e os negros hipersexualizados e suados, em segundo plano, em algumas cenas enjaulados e com pouca roupa, mesmo com toda essa diferença na representação da branca e dos negros, ainda é difícil convencer as pessoas de que sim: o clipe é racista!

 

 

Nós, negras e negros, não morremos só de tiro. A gente morre também quando as nossas pautas são apagadas, quando a nossa voz é calada, quando ficamos adoecidos psicologicamente pelo fato de sermos discriminados por nossa cor de pele. Enquanto as pessoas acharem que nossas reclamações são exagero, enquanto nós formos representadas/os na mídia de forma estereotipada, o racismo no país persistirá.