Desenroladas


A sede de vida e dança intensa do novo clipe de Don L “Laje das Ilusões”

 

O rapper cearense Don L, hoje radicado em São Paulo, acaba de lançar um novo clipe que nos deixou sem fôlego até agora. Com direção assinada por uma mulher, a fotógrafa Autumn Sonnichsen (que, aliás, é especialista em clicar mulheres), o vídeo reúne bailarinas em uma ampla sala vazia com piso de taco. É de não querer parar de dançar desde a primeira batida, é também querer parar para ouvir melhor a letra, é querer saber se movimentar feito elas…

Mas, melhor do que nós, Don L falou sobre tudo o que envolveu esse clipe em um texto que, por si só, já é inspirador:

“É sobre essa sede de vida, e essa sensação de estarmos sempre muito aquém das nossas possibilidades como seres humanos, ao mesmo tempo em que lutamos contra a natural decadência de todas as coisas e contra todos os limites que nos são impostos como muros por todos os lados, em um labirinto infinito, carregando involuntariamente uma bagagem de tudo que já foi definido pra nós desde o nascimento por um mundo fudidamente injusto, e mais todos os nossos erros e acertos do caminho. E a gente vai driblando tudo isso, e criando nossos fantasmas pra ajudar com o peso da bagagem, e seguindo em frente, até o ponto em que a gente não sabe mais diferenciar a realidade das nossas obsessões e delírios, nessa não aceitação da nossa mortalidade, nessa busca pelo potencial potencial, pela parte que a gente não alcançou ainda, e que promete sempre ser a peça que faltava do quebra-cabeças, mas que apenas revela aspirações ainda maiores e aparentemente inalcançáveis. É a última faixa de uma trilogia, como aquele momento em que você olha pra trás e observa o quanto cê já andou, e quando olha pra frente de novo tudo que cê desejaria de uma lâmpada mágica seria manipular o tempo, ou transcender a noção de tempo e espaço. E é o que a dança simboliza pra mim, nesse clipe. Essa arte que é esporte ao mesmo tempo, no sentido de ser bela e violenta, de maltratar o corpo até o limite da dor, e superar a dor, e transcender o corpo, e não aceitar o limite, não reconhecer o corpo como limite, e por um momento, mesmo se reconhecendo dentro de um momento, não reconhecer o tempo como limite, e dançar com ele, como inimigo e amigo, impondo um ritmo meio luta meio sexo.”