Desenroladas


Por linhas e agulhas: a reinvenção do crochê

blog2
A designer Karen Bazzeo reinterpreta a arte do crochê (Foto: Clara Dourado)

Peças feitas a mão ganham novas interpretações por meio de jovens designers que veem no crochê possibilidades muito além da tradição, associando o material ao luxo e a arte

Imagine uma mulher em meio a agulhas e linhas produzindo peças de crochê. Se você pensou no estereótipo de uma “avó”, prepare-se para rever seus conceitos. Existe um movimento forte de retomada dos trabalhos manuais por parte da chamada “geração Y” – quem está hoje na faixa dos 20 e 30 anos – usando técnicas tradicionais para inovar na moda e no campo artístico. Para a diretora de arte Karen Bazzeo, 29 anos, a experiência como designer é essencial para fugir do comum na hora de realizar suas peças em crochê. “Isso me deu uma noção visual mais apurada, como combinação de cores e composição. Quando faço meus projetos, crio antes um gabarito no computador e calculo todos os pontos para não ter erro”, conta a paulista.

blog1
Karen e seu espaço criativo em São Paulo (Foto: Clara Dourado)

Suas ideias são traduzidas em linhas que formam objetos de decoração e também inserções na paisagem urbana, um processo chamado de “yarn bombing” (do inglês, “bombardeio de linha”). “É uma forma de incluir o crochê como arte urbana, como se fosse um grafite”, explica Karen. Um de seus projetos recentes inclui a confecção de uma “roupa” inteirinha de crochê aplicada sobre um grafite dos artistas Felipe Primat e Julio Fala, na região de Pinheiros, em São Paulo.

blog3
O “yarn bombing” conjunto de Karen, Felipe Primat e Julio Fala

Social

Além disso, ela dá vida ao projeto “Pegue um Coração” no qual cria pequenos itens de crochê e os espalha pelas ruas, junto com frases positivas. “Também criei a hashtag #pegue1coracao através da qual as pessoas podem compartilhar nas redes sociais as fotos que fazem das peças que criei. A resposta do público tem sido muito boa”, conta com um sorriso largo e demonstrando surpresa. Iniciado em 2013 em sua cidade natal, Bauru (SP), o projeto já passou também por São Paulo, pelo Rio e está de malas prontas para o nordeste brasileiro. “Vou fazer um ‘mochilão’ em 2015 com o intuito de conhecer e aprender novas técnicas manuais com as rendeiras nordestinas. Começo por Salvador (BA) e termino em Fortaleza (CE). A ideia é espalhar meus corações de crochê por todas as cidades que passar, pois essa é uma forma de me expressar e deixar algo para a população local”. Essa conexão com o todo e preocupação em gerar algo positivo em meio ao caos urbano, também permeiam o trabalho de Priscila Curce, 28 anos, estudante de Design de Moda. Ela integra o Coletivo Agulha, grupo de intervenção urbana que espalha peças coloridas em crochê por algumas áreas de São Paulo, como o Parque Buenos Aires e o Elevado Costa e Silva (conhecido como Minhocão). “Trabalhamos a polifonia têxtil com a intenção de que as pessoas parem e observem o espaço urbano de outra forma. É um presente nosso para acidade”, reflete.

blog
Priscila participa do Coletivo Agulha que realiza “yarn bombing” em São Paulo, como este no Parque Buenos Aires (Foto: Clara Dourado)

Participando também de diversos projetos e ONGs, Priscila ampliou sua forma de pensar o mercado fashion e sua possível função transformadora social. No momento ela trabalha com a busca da valorização da imagem da mulher com câncer por meio de um projeto da faculdade na qual estuda, em parceria com um hospital de São Paulo. “Cada paciente cria uma peça em crochê, em forma livre, e nós juntamos tudo para criar um desfile final com as peças”, conta Priscila.

blog1
Priscila acredita que o artesanato traz um novo olhar para a moda (Foto: Clara Dourado)

Luxo

Esse novo olhar para o crochê também foi o ponto de partida do trabalho da estilista Larissa Müller, 24 anos. Buscando trazer um aspecto mais fashion, com modelagens mais modernas e menos “careta” do crochê, Larissa passou a criar suas próprias peças.

[NZOEIRA - 9]  TABLOIDES/NZOEIRA/1_MATERIAL ... 30/11/
Larissa cria modelagens modernas para suas peças em crochê (Foto: Helosa Araújo)

“O processo todo me fascina. É impressionante examinar uma peça com diferentes tipos de ponto e perceber que aquilo tudo foi feito à mão simplesmente com linha e agulha. E a infinidade de combinações e criações que podemos fazer com isso”, relata. Todo esse apreço carrega uma influência familiar, o que é natural em processos artesanais. “Minha mãe sempre gostou dessa onda mais ‘hippie’, já eu sou mais ‘peruinha’, e minhas peças de crochê com certeza também tem um pouco disso”, reflete Larissa, que diz gostar de produzir modelos mais sofisticados a partir do material.

Com as peças feitas a mão ganhando ares de luxo no mercado da moda, a estilista aposta na tendência como uma forma de ir na contra mão do consumo “fast-fashion” e investir na exclusividade. “O fato de serem peças mais exclusivas e com uma certa ‘história’ encanta”.