Desenroladas


Por uma moda sustentável – entrevista com Chiara Gadaleta

A apresentadora e stylist Chiara Gadaleta fala, em entrevista à coluna, sobre os aspectos relacionados à moda sustentável. Entre discussões sobre mão de obra, matéria prima e estilo de vida, Chiara expõe sua visão do assunto

Chiara Gadaleta (1)

As etiquetas das roupas trazem muitas informações além de sua marca e das instruções de lavagem. Já parou para pensar em quantas empresas produzem suas peças no próprio país, com mão de obra local, cargas justas de trabalho e matérias-primas orgânicas?

Esses são apenas alguns pontos essenciais para a discussão da sustentabilidade na moda, uma questão cada vez mais urgente dentro e fora do mercado fashion.

Entre os dias 3 e 5 de dezembro, São Paulo sediou o BR.EcoEra, evento que levanta a bandeira da preocupação socioambiental, sem deixar de lado o estilo e a estética. Acontecendo principalmente na região do Bom Retiro, a programação incluiu desfiles, encontros, oficinas e mesas redondas com o objetivo de promover discussões e impulsionar a conscientização da população sobre o impacto da indústria da moda no cotidiano. Direto de São Paulo, conversamos com a organizadora do evento, a stylist e apresentadora de TV Chiara Gadaleta.

 

Como teve início sua trajetória na moda?
Comecei como modelo e assim fui trabalhar em Paris. Morei lá por cinco anos, onde tive a chance de estudar moda no Studio Berçot (uma das mais prestigiadas escolas de moda do mundo).
E a bandeira da sustentabilidade, como entrou no seu trabalho?
Há oito anos senti a necessidade de olhar a moda de outra forma. Comecei a me conectar com a questão do descarte da indústria têxtil e a partir daí um mundo de questionamentos surgiu. Tive a certeza que queria usar a minha voz para disseminar as questões sociais e ambientais na indústria da moda e da beleza.

O que caracteriza a moda sustentável?
São basicamente quatro pilares: ecológico, social, cultural e econômico.

Além do seu trabalho como stylist e apresentadora, você ainda encabeça o EcoEra. Como surgiu a ideia do evento?
Depois de alguns anos de pesquisa e trabalho de campo em várias cidades do Brasil, achei que estava na hora de espalhar todo aquele conhecimento. Com o EcoEra as pessoas começaram a acreditar que a moda pode ter atributos sustentáveis . Além disso, criamos uma rede de relacionamentos formada por empresários, estilistas, fornecedores e consumidores finais que estavam em busca de uma moda mais consciente, contemporânea e com a cara do Brasil.

Quais as principais mudanças entre a primeira edição do EcoEra e esta última, que aconteceu no início de dezembro, em São Paulo?
Quase três anos de passaram. Mais marcas com atributos sustentáveis e mais consumidores conscientes (participaram). Nessa ultima edição a grande novidade foi abrir a programação para outras instituições. Abrimos inscrições no site www.ecoera.com.br e tivemos eventos simultâneos em vários pontos da cidade.

Como você vê atualmente a questão da sustentabilidade na moda brasileira? Acredita que exista realmente uma mobilização em prol dessa causa ou muitas marcas ainda se utilizam do termo “ecologicamente correto” puramente como marketing (o chamado “greenwashing”)?
Sem dúvida existem marcas e projetos que se relacionam legitimamente com as questões sociais e ambientais. Na verdade é fácil ver quando uma empresa faz “greenwashing”, pois não existe continuidade.

Chiara Gadaleta (3)

Você acredita que seja possível uma moda 100% sustentável? Quais marcas seriam grandes exemplos nessa linha?
Primeiramente, nenhuma marca pode ser 100% sustentável. Mas se tratando de empresas que possuem atributos sustentáveis, podemos citar várias. As que chamaram a atenção do EcoEra esse ano foram a SAISS, que reaproveita câmaras de pneu que seriam descartadas, e a Reserva, com grande iniciativa social.

Ainda existe muita gente que associa a preocupação ambiental a um design menos elaborado ou até a um discurso “eco chato”? Quais seriam as “armas” para combater esse preconceito?
É simples: se usarmos a beleza e o estilo para fazer a diferença, nada fica chato.

Existem diversos movimentos que nadam contra a corrente de consumo, como o “Free Your Stuff”, de Berlim (Alemanha). Como você vê essa mudança de consciência? Acredita que sejam grupos isolados ou uma tendência que ganha força e deve chegar, em breve, ao público geral?
Na Europa e, em Berlim especialmente, essa cultura já está muito integrada à população consumidora. Nos Estados Unidos, o estado da Califórnia também (tem essa cultura). Aqui no Brasil temos a vocação para sermos símbolo da moda sustentável, pois ainda temos capital verde, a natureza, e capital humano, as pessoas.

Quais os primeiros passos que uma pessoa deve dar para ter um estilo de vida mais sustentável? Por onde começar?
O primeiro passo é começar a se questionar. Fazer perguntas a si mesmo como: “você se veste de quê?” e “qual é a moda que te representa?” são realmente importantes nos dias de hoje.