Desenroladas


Vida de modelo: uma entrevista exclusiva com Michelli Provensi

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“Dostoiévski certa vez disse: ‘A beleza salvará o mundo’. Agora, quem salvará as modelos?”. O questionamento feito pela modelo Michelli Provensi publicado no site Petiscos já chega quebrando alguns estereótipos da sua profissão. Foi seguindo na contramão de tudo o que se pensa sobre esse universo almejado por inúmeras meninas, que Michelli publicou “Preciso Rodar o Mundo”, livro em que conta os bastidores da trajetória de uma modelo “real”.

Na profissão há 12 anos, Michelli não chegou a ser top (“poucas são. O mercado não comporta muitas tops, os cachês são muito altos), mas pode-se considerar uma modelo de sucesso, com campanhas e desfiles importantes pelo mundo inteiro.

Natural de Maravilha (SC), Michelli foi descoberta durante um concurso para o Diário Catarinense. A partir daí começou a sua peregrinação pelo mundo, passando por mais de 37 países e dividindo apartamento com 127 meninas no total. Ela conta os bastidores da profissão, assim como mostra também outras modelos cearenses. Não, não é fácil.

Quais as situações mais adversas que uma modelo costuma viver?

O mais difícil é a pressão do mercado em si, que exige muito do nosso psicológico e do nosso corpo. Também já dividi apartamento com 127 meninas no total e com isso tive que aprender a conviver com pessoas de todo jeito. E, em um apartamento com tantas meninas, nem todas trabalham bem, então tinha muita inveja. As meninas chegavam a colocar vinagre no leite da outra para azedar. Outras atrasavam o relógio da colega para ela chegar atrasada no casting.

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Como você lida com essas vaidades que costumam imperar no mundo da moda?

Você tem que ser meio psicóloga das suas colegas. Eu tentava entender o que acontecia com cada uma, se era um problema de família (que muitas têm). É um mercado que tem egos bem gigantescos, então você tem que aprender que isso é só um trabalho. Acontece também das pessoas, em algumas temporadas, te tratarem bem e depois, se você não estiver tão em evidência, te tratarem mal. Eu não gostava disso.

Como você conseguia interpretar essas angústias das outras meninas?

Eu lia muitos livros de psicologia, além de ser uma coisa muito minha isso de ouvir o outro. Além disso, ajudando as outras meninas eu também estava me ajudando, eu conseguia entender os meus dilemas. Eu sou uma menina normal, que chegou o mais próximo do sucesso que uma modelo pode chegar sem ser uma ‘top’. Porque as ‘tops’ são cada vez mais raras, o mercado não consegue nem suprir os cachês muito altos delas.

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Que relação você mantinha com a escrita anteriormente? Tinha diários?

Sempre mantive diários e tenho até hoje. Eles foram muito importantes no processo de pesquisa do livro. Aliás, aconselho a toda menina a escrever um diário, pois ajuda a botar nossas questões pra fora. Recomendo também a fazer terapia. Aliás, queria muito que toda agência tivesse um acompanhamento psicólogo e nutricional, pois as meninas sofrem muito com as pressões do mercado, principalmente as relacionadas ao peso e às medidas. A minha agência tem, mas é raríssimo. Era algo que deveria vir no pacote.

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Você é a favor da mudança do padrão exigido pelo mercado?

Esse padrão de magreza não vai mudar tão cedo. É uma consciência mundial que tem que ser mudada. Eu gostaria que as pessoas entendessem que geneticamente o ser humano é diferente, limitar o quadril a 90cm para todo mundo é algo muito difícil de manter. E os estilistas querem meninas cada vez mais magras e por isso existem modelos tão novas trabalhando. Eu acredito que a mudança tem que começar pelo cliente, em não apoiar e não selecionar meninas tão magras.

Você chegou a comentar em um post no site “Petiscos” uma frase de uma amiga sua: “A geladeira está vazia, mas meu guarda roupa é de dar inveja!”. Explica melhor um pouco essa questão.

Muitos cachês são pagos em roupa. Isso acontece muito, principalmente no começo da carreira. Eu não aceito mais cachê só em roupa, peço pelo menos uma parte em dinheiro porque meu IPTU não consigo pagar com roupa. Pode até ser importante no começo, quando você precisa estar bem vestida para os castings, mas depois de um tempo enche o saco. Mas isso acontece inclusive em Nova York. O Marc Jacobs, por exemplo, só paga as meninas em peças.

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Sua publicação gerou algum mal estar nos backstages, por revelar esses bastidores do mundo da moda?
Não, acredita? Eu fiquei até surpresa. As pessoas entenderam que era meu ponto de vista e das coisas que eu tinha vivido. Eu tive uma aceitação muito grande por parte das pessoas da moda. Muitos produtores, stylist, maquiadores me escreveram elogiando. Eu posso até ter dado uma cutucada em alguém no livro, mas não ofendi ninguém. A ideia era mesmo mostrar o lado humano das modelos, que não precisam de ninguém nos ofendendo, nos chamando de gorda. Não precisa gerar essa energia.

Porque não esperou se “aposentar” para escrever esse livro?

No começo eu estava um pouco mais medrosa, pensava em como ia falar sobre esses assuntos. Mas depois pensei que tinha mesmo que contar enquanto sou modelo, enquanto vivo tudo isso. Mas no livro eu também uso muito do humor para não machucar ninguém. Nem quero assustar as meninas que sonham com a profissão, mas quero que elas tenham noção de que é um trabalho, que você tem que estar preparada psicologicamente e se conhecer para não ficar frustrada.

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Como você lida com o estigma de “burrice” que permeia a sua profissão?

Quando eu dizia que queria publicar um livro, eu sentia uma certa surpresa. Mas também muita admiração. O sentimento que eu tenho é de que fui muito apoiada pelos meus colegas, porque rola um ‘bullying’ muito grande de que a gente é fútil e burra. Então foi difícil até para encontrar uma editora, porque não era a Gisele Bündchen escrevendo um livro, era uma modelo normal, que é mais conhecida no mercado da moda mesmo.

Que mensagem final você deseja que as pessoas tenham a partir do seu livro?

Quero que as pessoas nos enxerguem como batalhadoras e vejam que o glamour fica muito para o espectador.

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Autor: Provensi, Michelli
Editora: Da Boa Prosa
Nº de Páginas: 256
Preço sugerido: R$39,90

 

 Depoimentos de modelos cearenses sobre as dificuldades da profissão:

Karen Palhano

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“Sou modelo há seis anos e atualmente moro em Singapura. Os momentos mais marcantes da minha carreira foram uma campanha para promover a revista Capricho, da qual sempre fui leitora, e quando fotografei pra revista GQ em Xangai (China). Adorei fotografar pra uma revista internacional! Mas não é tudo glamour, muito menos moleza. Ter a consciência de que o trabalho não vem fácil e sem esforços é uma dica importante a ser dada. A modelo deve ser forte, saber o que quer e que essa profissão não é ‘brincadeira’. Não basta ter só um rosto bonito. Devemos estudar, estar sempre por dentro do que está rolando no mundo da moda, treinar pose, atuação e ter o espelho como seu ‘melhor amigo’. A parte mais difícil da profissão é modelar num país no qual a população não fala inglês, nem a sua língua e você também não fala a língua deles. Ainda por cima tem os costumes totalmente diferentes dos seus, o que por vezes é estressante. Você abusa das mímicas, mas chega a ser cômico também e você aprende bastante. Uma vez o fotografo pediu em ‘inglês’ pra eu sentar e sorrir, mas pronunciou ‘shit and smell’. Fiquei confusa né gente? (risos).”

Luiza Kemp

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“Quando coloquei os meus pés na China, em minha primeira viagem internacional, foi um momento muito marcante. Tinha 15 anos na época. Já a Turquia é um lugar perigoso para trabalhar e as modelos são confundidas com prostitutas. Existem agências sérias, mas são poucas. Graças a Deus não aconteceu nada comigo porque tive auxílio da embaixada do Brasil para sair do país. Por isso repito a importância de checar bem as pessoas com quem você irá trabalhar, buscar agências com bons nomes no mercado e sempre procurar as referências do lugar.
Outro lado que as pessoas normalmente desconhecem é o quão cansativo é o nosso trabalho. São horas de espera, tanto nos castings (seleção para trabalhos) como nos desfiles, onde chegamos de manhã para trabalhar só à noite.
E por último, as situações mais curiosas/adversas foram um ensaio de salto na proa de um navio (o que foi bem arriscado) e contracenar com um homem vestido de coelho que só falava japonês, durante toda a madrugada, para um comercial da Panasonic.”

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