Desenroladas


Por uma moda mais consciente

Por Joana Maranhão

andré carvalhal

Na última quarta-feira (11.11), rolou uma palestra pra lá de enriquecedora com o head de marketing da Farm, André Carvalhal. O objetivo do evento era apresentar as mudanças quanto à criação, produção, comunicação e venda de roupas, considerando as oportunidades de transformação social e cultural. Assim como, fazer um teaser do novo livro do gestor de marketing, intitulado “Moda como Propósito”, que tem previsão de lançamento para março de 2016.

André começou a noite contando um pouco da sua história profissional e como foi o processo para ele chegar ao entendimento que tem hoje sobre moda e sobre o novo comportamento do consumidor. Para ele, o começo da mudança deu-se em 2012, quando muito se falou sobre o fim do mundo. Ele explicou seu ponto de vista argumentando que foi a partir dali que muitas crises passaram a ser realidade para todo e qualquer ser humano, vide as crises de água, as crises ambientais, as crises políticas, as crises de relações interpessoais e assim por diante. Na sequência, fundamentado pelo diagrama de Paul Baran, ele mostrou como saímos de tempos de centralização de poder, renda e informação para a atual fase de hiperconexão, onde as pessoas tem voz e estão conectadas não só tecnologicamente, mas emocionalmente – o que um ser humano sente aqui afeta outro que está em outra parte do mundo (a Física Quântica e o documentário “I Am” – disponível no Netflix – explicam isso melhor).
A partir daí, ele falou sobre a influência das fast fashion no consumismo exacerbado e nos modelos de negócios de moda que imperaram na atualidade: “as fast fashion banalizaram a moda – deixando de criar desejos, sonhos e aspirações nas pessoas e desqualificando o trabalho de profissionais criadores”. A verdade é que grandes designers – agora atuando como meros funcionários de mega corporações que visam lucro – passaram a ter que criar 12 coleções anuais para manterem as ações dessas empresas em alta – o que enfraquece e pressiona todo e qualquer processo criativo.

Trabalhos, que antes eram valorizados por serem autorais e inovadores, foram reduzidos a produtos, deixando de representar o desejo de expressão das pessoas. “As marcas passam a copiar umas as outras e acabam prestando um desserviço à sociedade – que busca simplesmente se expressar através da vestimenta”, complementa.

No entanto, para o gestor de marketing, comprar não é uma coisa ruim. O capitalismo é um movimento ético, dando possibilidade de escolhas. Por isso, falar de consumo consciente não tem a ver com boicote, mas sim com uma nova maneira de comprar que envolve ética e que devolve para o meio ambiente e para as pessoas (no caso dos trabalhadores ou comunidades/etnias) o que foi tirado deles.

Ele defende que vivemos um momento de expansão de consciência e que este é um caminho sem volta. Assim, uma vez que o consumidor percebeu que precisa fazer escolhas, ele quer se relacionar com empresas que representem os seus valores. Por isso, André diz que a moda tem o papel de servir às pessoas e é algo que deve ser para todo mundo: “A moda é uma forma do indivíduo se colocar no mundo, sendo necessário criar empatia com o ser humano, precisa ser a favor da vida e não predatória pro meio ambiente e nem culturalmente cruel – quando exclui biotipos ou etnias”.

Se pensarmos que para algo se renovar é preciso que haja uma desconstrução do que já existe, vemos uma luz no fim do túnel. Segundo estudos, 1 em cada 7 indivíduos trabalha em uma atividade relacionada a moda. Essa proximidade com a vida das pessoas faz com que a moda seja um poderoso veículo para disseminação de novos conceitos.
Para ele, é com a força dos consumidores que será estimulada essa transformação no mercado da moda, pela mudança de hábitos de consumo. Porém, não sejamos utópicos. No momento é impraticável ser 100% sustentável, porque em algum momento da cadeia produtiva, a marca estará impactando no meio ambiente ou na vida de um cidadão ser recompensá-los.

A ideia, então, é fazer o melhor que se pode com os recursos que se tem. Fazer o que é possível para hoje e sempre questionar e analisar possibilidades de melhorias. E, por fim, entender o que dessa nova era pode ser traduzido para sua realidade – enquanto consumidor e enquanto marca. Lembre-se: cada um de nós faz parte desse movimento de mudança.

Aqui eu vou deixar nomes de alguns projetos, estudos e marcas servem como complementos para o que foi dito, mas que não foram citados no texto acima:
• Documentário “The True Cost” (disponível no Netflix);
• Documentário “Cowspiracy” (disponível no Netflix);
• Marcas de moda: Patagônia, Print All Over Me e Noiga;
• Projetos: Honest by, Nacho Rojo – Couples, Ecoera, Oficina de Estilo, Fashion Revolution, Modices (Carla Lemos) e Um ano sem Zara (Joanna Moura);
• Campanha do Greenpeace sobre detox na moda;
• Vídeo da Box1824: “The Rise of Lowsumerism“.