Desenroladas


Bienal do Livro do Ceará: conhecendo a contadora de histórias Kiusam de Oliveira

“Eu sou uma contadora de histórias”.  Foi a primeira frase de Kiusam de Oliveira durante entrevista exclusiva para o Desenroladas na Bienal do Livro do Ceará. O evento aconteceu entre 14 e 23 de abril, no Centro de Eventos, e trouxe a escritora paulista para participar de debates sobre a relação entre o universo feminino e a África dentro da literatura – nos quais ela também promoveu seus livros que abordam temáticas de empoderamento feminino e negro. Ao longo de quase 1h de conversa, Kiusam reforçou seu talento nato para construir narrativas envolventes. A cada resposta, ela nos presenteou com um capítulo de sua trajetória, com uma riqueza tão grande de detalhes que nos deixou fascinadas.

Kiusam de Oliveira é uma escritora incomum de histórias infantis. Negra, confiante e ativista, ela aborda temas como racismo, empoderamento feminino, autoestima infantil e resgate da cultura africana em seus livros para crianças. Doutora em Educação e Mestre em Psicologia, ela também é bailarina e professora de danças africanas.

Para ilustrar seu pensamento sobre como abordar assuntos como inclusão e emporamento para crianças, ela contou algumas histórias da sua própria vida. Kiusam foi criança no interior de São Paulo, na década de 1970, ainda no século XX. Sempre ouvia a mãe alertá-la acerca do racismo, mas, naturalmente, até seus seis anos não o entendia completamente.

“Eu estudava em uma escola de freiras na minha infância. Quando a irmã nos reuniu e pediu para que formássemos filas para subir para a sala de aula, algumas crianças começaram a gritar ‘olha a macaca, olha a macaca’ e saíram correndo. A irmã não nos reorganizou ou chamou atenção dessas crianças, ela simplesmente subiu junto com elas. Fiquei lá embaixo parada sozinha com minha irmã ainda mais nova que eu”, conta. E continua, com certa indignação: “Naquela época, eu tinha um problema urinário. Eu levantei a mão para pedir permissão para ir ao banheiro. A irmã me negou… Acabei por urinar-me. A freira me puxou pelo braço, levou-me para o banheiro e tirou minhas roupas. Jogou-me embaixo do chuveiro gelado, em pleno inverno (era junho) e limpou minha boca com papel higiênico Primavera (ele machucava). Eu chorava. Ela mandou eu ficar lá parada, e foi buscar os meus colegas de sala. Entraram no banheiro, eu tentava me cobrir constrangida. Todos riam da ‘macaca pelada’. E então, ela disse: ‘Olhem bem para essa cena. É assim que se deve tratar um preto'”.

Enquanto lembrava outras situações envolvendo crianças, educação e relação familiar, a escritora reforçou:

“Precisamos falar com as crianças. Elas repetem o que escutam dos pais. Precisamos falar com as crianças, porque precisamos mudar o futuro

 

O Mundo no Black Power de Tayó, de autoria de Kiusam, é uma publicação premiada, selecionada para o Acervo Básico da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e um dos 10 livros escolhidos pelos Direitos Humanos. Ele conta a história de uma menininha de seis anos muito orgulhosa do seu cabelo – black power – e muito certa de si mesma. Enquanto as outras crianças a zombam e a isolam, ela diz feliz e segura:

“vocês só estão com dor de cotovelo, por não poder levar o mundo nos cabelos”.

Tayó segue seus dias na escola ensinando para os seus colegas o amor próprio e a valorização do que se é – algo muito importante para ser tratado, não só pela questão do racismo, mas também pela urgência do debate sobre bullying na escola e depressão na infância e adolescência (especialmente depois do estouro da série “13 Reasons Why”, da Netflix).

“O livro é extremamente sutil e poético. Comecei a escrever no momento mais difícil da minha vida, quando minha mãe teve uma doença grave. Nos isolamos no sítio, para a mamãe relaxar um pouco. Nesse dia, tive uma visão. A Tayó apareceu pra mim e disse: ‘Eu sou a Tayó, tenho seis anos e você vai escrever uma história linda sobre mim'”, comenta. “Sempre tive muitas visões. Passei anos na umbanda, e agora sou do candomblé”, continua, mostrando um lado espiritual aguçado que também acaba por influenciar seu trabalho.

A forte relação entre Kiusam e a mãe permeia o trabalho da escritora, afinal, o ambiente de casa e as relações familiares a motivaram a escrever sobre do universo infantil. A mãe e o avô foram figuras centrais para que Kiusam tivesse orgulho da sua ancestralidade, tendo a mãe a apresentado ao Movimento de União Negra e o avô falado sobre a religiosidade africana. “Meu avô era do candomblé. Então, ele sempre trazia histórias desse universo, de mitos africanos. E a minha mãe, mesmo católica, me contava muitas dessas histórias”.

Já o livro Omo-Oba: Histórias de Princesas conta histórias de princesas africanas, baseados na mitologia do continente. Sobre a reação das crianças aos contos, ela diz: “Muitos professores me mandam mensagens falando da dificuldade e rejeição que encontram com as crianças a principio, pedem dicas para mim. Elas dizem que não existem princesas negras, que elas não são bonitas porque são ‘pretas’ (…) Mas, por outro lado, quando elas se identificam, a aceitação é maravilhosa. Identificam-se pela personalidade, sem fazer diferenciação de ‘raça'”.

Mais uma vez, aqui vê-se a necessidade e a importância de trazer ao universo infantil essa discussão. A educação inclusiva desde cedo é a base para a sociedade que queremos ver no futuro.

Como importante nome dentro do ativismo negro, a escritora não tem opinião formada quanto ao tema de apropriação cultural, tão polêmico no Brasil ultimamente. Existe um certo e um errado na questão? “Quanto à isso, não sei. Ainda estou muito confusa. Mas tenho certeza que me incomoda profundamente que a nossa cultura só receba atenção da mídia ou do mercado quando o branco também se interessa. Ou quando nosso símbolo acaba por ser meramente capitalizado. Porém, estamos num país de grande miscigenação… Não posso, ainda, dar uma resposta pra isso. Ainda estou internalizando e processando. É delicado”, responde.

Kiusam de Oliveira conversou com a gente por 50 minutos, quando supostamente só tinha 10. Ela fez com que aquele momento fosse uma situação de troca e envolvimento, assim como fazem as melhores contadoras de histórias.