Desenroladas


Entrevista com Marcia Tiburi: “o feminismo não é uma ideia e nem uma prática pronta”

*Por Carol Kossling, jornalista, paulista e muito curiosa

Após 13 anos sem publicar novos títulos, o selo feminista Rosa dos Tempos, criado por Rose Marie Muraro e Ruth Escobar na década de 1990, volta à ativa com o livro “Feminismo em comum: para todas, todes e todos”, da filósofa gaúcha Marcia Tiburi. A autora, de importantes obras que servem para refletirmos o pensamento crítico contemporâneo como “Filosofia prática: ética, vida cotidiana e vida virtual”, “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” e Sociedade fissurada: para pensar as drogas e a banalidade do vício”, entre outras, recebeu com alegria e generosidade o convite do selo, agora na Editora Record.

“Todas sabemos da importância da Rosa dos Tempos, quando foi fundada pela Rose Marie Muraro. Que a editora retorne é mais que um alento. É o sentido da luta que se dá em várias frentes”, avalia Tiburi. No livro, a filósofa fala em tom bem pessoal como vê o feminismo do seu ponto de vista como professora de filosofia e feminista que é e propõe reflexões para contribuir com este debate.

Por que decidiu escrever este livro?

Para “todas, todes e todos” muda muita coisa, pois não quero continuar usando o termo “todos” que é um universal opressivo. Verdade que a linguagem tradicional é assim, mas ela é machista. E quis demarcar que o livro foi escrito para expandir o feminismo, para colocá-lo na posição de lente de aumento da microfísica do cotidiano, de crítica do poder, de paradigma de análise da sociedade. Minha intenção foi mais do que definir o feminismo, mostrar seu potencial como teoria e como prática evidenciando seu caráter de resistência, de coragem no enfrentamento das injustiças do machismo branco e capitalista. Ao meu ver é necessário expandir o conhecimento sobre o feminismo, integrar sujeitos para que todos possam melhorar suas vidas e a vida em sociedade a partir dele. E por que acredito nisso? Porque, como tento demonstrar no livro, o feminismo é uma ético-política madura e completa, corajosa e aberta, que pode desmontar o patriarcado como sistema de privilégios e de violência.

Por que você considera que a “cada vez que surge uma nova feminista, um novo coletivo, o feminismo se modifica”?

Defendo a ideia de um feminismo processual. Isso quer dizer que o feminismo não é uma ideia e nem uma prática pronta. Não é uma teoria feita por acadêmicas “sacerdotisas” ou vestais que, de cima para baixo, dizem às outras mulheres o que deve ser o feminismo. Feminismo é teoria viva ligada diretamente à prática. Nesse sentido, o feminismo é a práxis que se faz com as companheiras de luta. Crescemos e aprendemos nesse processo de compreensão da sociedade ao mesmo tempo que promovemos sua transformação.

Qual a sua visão atual em relação ao patriarcado? E ao machismo?

Escrevi esse livro justamente para expor o seguinte: o feminismo não é uma teoria e uma prática em abstrato, ele é uma urgência social e histórica que serve para compreender e transformar as condições da vida sob o patriarcado. O que é patriarcado? Um sistema de privilégios e de opressão, equivalente ao capitalismo, só que seu braço de “gênero”, do mesmo modo como o racismo é o braço de “raça” do capitalismo. Esse sistema de opressão privilegia machos brancos e donos do capital e violenta mulheres e demais minorias políticas ainda que elas sejam maiorias populacionais. Refiro-me, sobretudo, à população negra. O machismo, por sua vez, é uma espécie de metodologia aplicada do patriarcado. As mulheres conhecem seus efeitos destrutivos na pele. O feminismo é a luta que desmorona esse sistema todo.

Na sua opinião, quais os principais desafios que o feminismo enfrenta hoje em dia?

São os mesmos de sempre acrescidos de novas e piores condições sociais e políticas. Não podemos pensar o feminismo em abstrato. Pensar e fazer feminismo no Brasil hoje implica pensar o golpe vivido em 2016 e que continua a se aprofundar com o estado de exceção que vivemos nesse momento em que a Constituição está sendo desrespeitada descaradamente. Reforma da previdência, fins dos direitos trabalhistas, desregulamentação geral da economia, destruição das instituições e da democracia. O que pode o feminismo diante disso? Ele é resistência e luta por transformações sociais democráticas em um contexto autoritário.

Como o poder e a violência influenciam as relações entre mulheres e homens?

Os homens são os sujeitos do privilégio do poder. As mulheres as vítimas da violência que surge desse privilégio. O patriarcado é estruturado em uma equação em que homens detém o poder e geram violência simbólica e física contra mulheres e outras minorias políticas que ficam afastadas dos poderes, ou sendo suas servas e vítimas. Isso é insustentável se desejamos democracia. O feminismo lutou sempre contra a violência perpetrada pelo machismo justamente porque isso é democrático. O machismo é um autoritarismo vivido no cotidiano sob o signo das desigualdades de gênero camufladas em uma ideia de natureza.

De que forma o feminismo pode ser adotado desde cedo pelas meninas e adolescentes?

O feminismo não é uma coisa, não é um chip, não é um discurso pronto que as pessoas tomam para si. Se fosse isso ele seria uma simples ideologia, quando, muito mais que isso, ser feminista é aprender a pensar de maneira crítica e lutar pela transformação do mundo. O feminismo é um operador de leitura crítico. Sociedades conservadoras não gostam e não promovem a análise e a crítica. Por isso, o feminismo é também uma desmontagem dessa sociedade que se sente ameaçada por ele. Qualquer criança que seja ajudada a pensar, menino ou menina, vai preferir ser feminista, mesmo que não use esse termo.

Como as mulheres podem evitar o feminicídio?

As mulheres não podem evitar, elas podem lutar para que as condições nas quais ele surge sejam dissipadas. Os homens é que tem que parar de matar e para que isso ocorra devem questionar os motivos pelos quais se tornam assassinos. A meu ver o machismo que gera a violência contra as mulheres é uma forma de miséria subjetiva radical. Deve ser horrível ser homem e ser machista.

Quem, na sua opinião, são as feministas mais ativas e as mais populares no Brasil atualmente? Por que?

Não creio que possa haver uma resposta feminista a essa pergunta. O feminismo é uma postura horizontal que não opera com “mais” e “menos”. Esse tipo de pergunta é marcada pela lógica hierarquizante do patriarcado. Posso citar várias pessoas famosas agora, mas nenhuma delas é mais ou menos importante do que outra feminista menos conhecida. Essa lógica do espetáculo que transforma feministas guerreiras em personagens midiáticos é perversa. O feminismo está aí para desmontar essa lógica também.

Feminismo em comum
Marcia Tiburi

Páginas: 126
Preço: R$ 19,90
Rosa dos Tempos / Grupo Editorial Record