Desenroladas


Visita à tribo indígena Jenipapo-Kanindé

Esta é Mãe Pequena, da tribo JenipapoKanindé (residente no município de Aquiraz/CE), a primeira mulher cacique do Brasil. Tive a oportunidade de conhecer este ser forte e um pouco dos seus costumes numa visita ao Museu Jenipapo-Kanindé, em fevereiro deste ano. Como pioneira na história do nosso país enquanto liderança indígena, era de se esperar que ela fosse bastante reconhecida, certo? Porém, seu nome e sua trajetória são ocultos para uma boa parte da população. Poderia citar uma longa lista de motivos para este fato, mas a verdade é simples: os povos indígenas brasileiros, infelizmente, permanecem invisíveis para o grande público.

Inicialmente escravizados pelos portugueses e espanhóis após a “descoberta do Brasil”, os índios foram dizimados ao ponto de restarem poucas comunidades destes que eram os habitantes originais do nosso país. Dos cinco milhões que aqui habitavam, hoje só restam 460 mil de acordo com a Funai (Fundação Nacional do Índio). Como eles estão hoje? Segregados em suas comunidades, afastados dos grandes centros urbanos (onde existe mais oportunidade de emprego) e lutando de formas precárias para ter a posse legal de suas terras, dentre tantas outras questões.

Território

O povo Jenipapo-Kanindé vive nos arredores da Lagoa Encantada (foto acima). O local é habitado por eles há séculos, mas somente em 2011 a etnia teve seu direito reconhecido. Donos naturais da terra, a comunidade travava uma disputa judicial com o grupo Ypióca que teve como maior “estratégia” para tentar permanecer com a área desconsiderá-los enquanto índios. Não, eles não vivem em malocas, não andam nus, não cozinham em fogueiras, nem realizam diversos outros clichês que nós, urbanos, muitas vezes julgamos como o “índio de verdade”. Mas estes clichês estão distantes da realidade atual da maioria das comunidades indígenas brasileiras.

Mesmo com a adaptação, muitos dos rituais e das tradições foram mantidos. A Lagoa Encantada, por exemplo, não é um lugar usado somente para a prática de pesca, para irrigar as plantações ou para tomar banho. É um espaço de grande importância espiritual no qual os índios Jenipapo-Kanindé meditam, se conectam com a natureza e, principalmente, onde reverenciam seus antepassados e as entidades espirituais que os protegem. Com certeza eu não teria acesso à essa informação se não tivesse ido lá.

Invisibilidade

Enquanto outras minorias já caminham para dias melhores em termos políticos e de visibilidade/ representatividade, muitos índios permanecem lutando para serem reconhecidos como tal. A falta de informação contribui para a falta de interesse nessas comunidades, na falta do nosso reconhecimento enquanto remanescentes indígenas e na falta de empatia com esta etnia que corre também em nossas veias e em nossa cultura essencialmente miscigenada.

Durante a visita à comunidade, a cacique Mãe Pequena abriu as portas de sua casa, contou um pouco da sua trajetória inspiradora e do preconceito que sofreu por ser mulher numa posição de liderança. Seus filhos e netos nos guiaram pelo território e falaram dos costumes preservados – costumes estes que contam uma parte de extrema relevância da história do nosso país e envolvem respeito, humildade, equilíbrio e altruísmo. Valores que pouco vemos no cotidiano de nossas selvas urbanas ditas civilizadas.

Ao final da visita, a cacique Mãe Pequena me presenteou com um par brincos de concha (foto acima), me deu um abraço carinhoso e falou com sua voz forte e tranquila: “Nunca abaixe a cabeça pra nenhum homem”. Meus olhos se encheram de lágrimas.

Saí de lá com a certeza de que não são só eles que estão perdendo com essa segregação. Todos nós estamos deixando morrer, diariamente, uma parte essencial da nossa própria história.