Desenroladas


Catarina Mina: um novo valor ao antigo saber

“Que tipos de vidas e pensamentos incentivamos com nossas formas de consumo?”

Me parece impossível passar batido por um questionamento como esse. Quando escolhemos o que vamos comprar, até que ponto nos perguntamos a origem daquele produto. A produção foi respeitada? De onde saiu a matéria prima? Sobre o que exatamente estamos pagando? Essa são questões atuais e urgentes, principalmente quando falamos de moda.

Celina Hissa, diretora criativa e idealizadora da marca Catarina Mina
Celina Hissa, diretora criativa e idealizadora da marca Catarina Mina

A pergunta que abre esse post foi lançada por Celina Hissa, designer cearense que comanda a Catarina Mina, uma marca de produtos handmade especializada em bolsas de crochet.  Foi observando o mercado e se perguntando quanto se era comumente gasto em propaganda e o quanto era investido na mão de obra, que Celina viu que a conta não fechava. Porque é usual focar o capital em imagem em vez de manter uma relação honesta com quem produz cada peça?

A Catarina Mina então decidiu ter #umaconversasincera com todos. Reuniu as artesãs e as convidou para ter uma participação nas vendas. E, mais que isso, abriu todos os custos ao consumidor final. É assim: quem entrar no e-commerce da marca, vai ver discriminado tudo o que foi gasto para produzir aquela bolsa, desde materiais até o valioso capital humano. E isso é revolucionário!

#umaconversasincera com as artesãs
#umaconversasincera com as artesãs

Quando vamos investir um pouco mais em uma peça, quase sempre nos perguntamos o porque de darmos aquele valor por ela. Quantas vezes nos respondemos: “estamos pagando qualidade”; “estou pagando atemporalidade”; “estou investindo em algo luxuoso”; “pagamos pela etiqueta” ou até “jamais pagaria isso por uma peça de roupa ou acessório”. Porém, a resposta nunca é exata. São suposições ou justificativas que encontramos para entregar (ou não) o nosso tão suado dinheiro em um produto de moda. Pois, um passeio por um e-commerce agora vai me dizer exatamente o que estou pagando! Estamos ou não criando uma nova relação de consumo?

Tendências

O pensamento da Catarina Mina, apesar de ter resultado em uma proposta inovadora de negócio, não é solitário. Um mercado mais consciente é uma tendência mundial. Segundo o site trendwatching, que divulga gratuitamente uma amostra das tendência de consumo para os latino americanos, traz, para 2015, dois caminhos em que a ideia da marca cearense se encaixa: Reconciliation Brands e Democratic Pricing.

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Bolsas Catarina Mina: o quanto elas valem?

Em Recociliation Brands, a agência observa o desafio: Em 2015, tome uma posição na luta contra a desigualdade. “Apesar de todo o progresso das Américas do Sul & Central, há ainda muitas barreiras que separam a população da região. Dificuldades financeiras, desigualdade e preconceitos. (…) Em 2015, as marcas não poderão ignorar esses problemas. (…) Marcas corajosas (grandes e pequenas) irão abraçar essa discussão. ‘Você fará sua parte para promover diálogo, reparar feridas e fazer reconciliações?'”

Já em Democratic Pricing, a agência revela a tendência de um preço cada vez mais claro para o consumidor. “Em 2015, os consumidores – cada vez mais acostumados a participar da ‘vida’ das marcas – irão levar o preço a um novo território. Depois de viver anos de flutuação de preços, consumidores das Américas do Sul & Central estarão confiantes de que sabem quanto produtos e serviços devem custar. Eles demandarão que as marcas (…) deem a eles a possibilidade de participar da precificação de produtos“.

Reflexão

Quando comecei a me aprofundar na proposta da Catarina Mina, me lembrei de uma entrevista que marcou muito a coluna Desenroladas. Um papo com Jum Nakao que aconteceu de madrugada pelo skype. Na conversa, ele falava sobre o projeto que ministraria no Dragão Fashion, “A Hora do Brasil”, que mais tarde se tornou um livro e uma exposição. Mas na entrevista ele falou para além de um evento pontual. Alguns trechos são especialmente impressionantes se pensar que foi dito e refletido há três anos, e agora é posto em prática por uma marca cearense.

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“o importante não é a matéria, mas a capacidade e humanidade que existe em cada um”

“(…) juntamos artesãos e alguns profissionais que já têm notoriedade, têm essa habilidade em saber. Esse saber constitui algo fundamental porque é a partir dessa aplicação do saber que nós transformamos algo que não tinha valor algum. Nesse projeto, elegemos quatro tipologias de raízes: o cordel, as cestarias, as rendas e todas as suas expressões (bilro, filé, renascença…) e a manipulação do couro. Reelaborando tudo isso, pois, da forma como já foi vista não emociona mais. O importante não é a matéria, e sim a capacidade e a humanidade que existe em cada um.”

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artesã e seu instrumento de trabalho: agulhas de crochet

“A forma e o processo como todo esse saber (do artesanato, da cultura local) até hoje vinha sendo trabalhado, era quase que condicionado para um ponto de referência estático. Dentro das próprias definições de folclórico em uma escala de menor valor. As pessoas estão buscando novas emoções, novas relações, então para isso é fundamental que todo esse saber tenha um renascimento, uma nova relação com o observador final. Enquanto nós congelarmos a nossa cultura como retrato estático, quase estereotipado como um quadro de terceiro mundo, jamais seremos primeiro mundo. Precisamos dar um novo valor ao antigo saber.”

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Celina e as artesãs: “um novo valor ao antigo saber”

Reflexões não são e nem devem ser impositivas. Elas só nos levam a pensar, quem sabe, por um novo caminho. Portanto, depois de toda essa conversa, que tal refazer a si mesma  a pergunta do começo do post?

Fotos: Igor Graziano
Catarina Mina: www.catarinamina.com.br