Desenroladas


DFB 2017 | Ricciardo Gomes e o desfile em performance artística

Quando vamos à uma exposição de arte, já estamos mentalmente preparados para um desconforto, uma chacoalhada no nosso interior. A arte tem esse poder arrebatador de nos fazer sair da zona de conforto, nos botar em um estado de questionamento e nos fazer sentir um turbilhão de coisas, mesmo que involuntariamente. O desfile do estilista e diretor criativo cearense Ricciardo Gomes, intitulado Contos que não são de Fadas – Capítulo I, no último dia do DFB Festival 2017, pode ser enquadrado dentro dessa perspectiva artística.

 

Com cores contrastantes, transparência e um aspecto lúgubre, a apresentação começou e terminou de maneira impactante. A música, o jogo de luzes e determinados detalhes visuais contribuíram para a intercessão entre moda, arte e performance.

O desfile, conforme indicado na própria denominação, é na verdade o primeiro capítulo de um projeto com três etapas, em parceria com a Prefeitura de Fortaleza e a Secretaria de Cultura. O capítulo dois será uma exposição na Universidade de Fortaleza, no Instituto de Cultura e Arte (ICA) da Universidade Federal do Ceará e no Porto Iracema das Artes. O terceiro capítulo, que encerrará o ciclo da performance, consistirá em uma intervenção urbana em parceria com artistas plásticos da cidade.

 

Ricciardo, que se pronuncia ‘riquiardo’, tem apenas 23 anos, ainda é estudante universitário, foi o vencedor do Ceará Moda Contemporânea 2014 com o tema “Ditadura” e é estreante no DFB Festival 2017. Cada peça desfilada foi manualmente produzida por ele sozinho.

Conversamos com Ricciardo sobre o conceito do desfile e a ideia por trás dele, que teve como ponto de partida a exploração sexual infantil – interpretada nas peças com transparências, sugestões de nudez, rasgos e roupas abertas.

Eu acredito numa moda com propósito, que vai além de roupas. E eu acredito que o Dragão é esse espaço. Eu pensei em algo que teve uma participação ruim na minha vida. Não aconteceu comigo, mas com pessoas próximas, que é a exploração sexual infantil. Quando pensei nisso, pensei em contos de fadas, que eram de terror antigamente. Aí que nasceu todo o conceito da coleção, passando pelos Irmãos Grimm, filmes infantis e filmes de terror”, conta.

 

O projeto tem três etapas para representar a reação e evolução da sociedade quando deparada com temas como esse. “Nós vamos em algumas escolas e ONGs que cuidam de crianças para dar aula de aquarela, e tudo que for produzido será transformado em estampa e bordado, e depois exposto”, explica.

O estilista deixa claro que sua intenção era causar algum tipo de incômodo em quem assistia. O look  que abriu o desfile trazia a modelo inteiramente coberta (inclusive o rosto). Já o que fechou a modelo usava uma espécie de aparelho que escancarava a boca. “O primeiro e o último look representa as coisas acontecendo na sombra, que as pessoas não veem ou fingem que não veem. O último é o choque de quando já está tudo escrachado“, comenta o estilista.

 

A trilha sonora, que ajudava na sensação desconfortável, foi escolhida e tirada do filme O Labirinto do Fauno, clássico de suspense do diretor Guillermo Del Toro, que conta a história de uma menina que usa a fantasia para camuflar a realidade difícil em que vive. O desfile de Ricciardo Gomes foi, definitivamente, daqueles para ficar para a história e mostrar como a moda pode ser uma ferramenta poderosa de reflexão e exposição sobre causas urgentes na sociedade.