Desenroladas


(Re)conexão com a natureza

Pausa para o silêncio.

Em meio ao caos de Belém, estou num santuário para borboletas, flamingos, açaizeiros, vitórias-régias, guarás e, claro, garças. Dentre várias espécies da fauna e da flora originais do Brasil, os seres voadores são os que mais encantam pela delicadeza e tranquilidade que passeiam soltos pelo ambiente. “Eles vivem com tanta naturalidade aqui”, penso. A ficha cai no mesmo instante. Nós humanos estamos tão distantes da natureza em nossas cercas elétricas e muros de concreto que quase esquecemos que também somos bichos e que isto é um simulacro.

O Parque Naturalístico Mangal das Garças foi criado pelo Governo do Pará em 2005 e é o resultado da revitalização de uma área de cerca de 40.000 metros quadrados às margens do Rio Guamá, nas franjas do centro histórico de Belém. Neste sopro de verde, respiro profundamente e imagino como deve ser ainda mais especial ver todas essas espécies livres na natureza. “A Amazônia está logo ali”, penso. A verdade é que o estado todo é território amazônico. Ou seja: tudo isto já foi floresta.

É lindo poder conhecer de perto as espécies que estão no Mangal das Garças? Sim. Mas e se as cercas não existissem? E se os animais não fossem monitorados? E se as pessoas não tivessem que pagar ingresso pra entrar? E se esta não fosse uma atração turística? E se fosse só floresta com os animais vivendo livremente? Será que os humanos ainda teriam o mesmo interesse e cuidado?

O desmatamento na Amazônia, o pulmão do planeta, cresceu 30% no ano passado e o Pará é um dos estados que mais desmata. A maior parte do problema se concentrou em terras privadas e assentamentos, sendo a exploração ilegal de madeira e o corte de árvores para formação de pasto as principais causas. Este crime ambiental agrava o aquecimento global e acarreta na extinção de espécies, aumento da poluição, erosão do solo e proliferação de pragas e doenças, dentre tantas outras perdas.

Em acordo internacional realizado em 2016, o Brasil prometeu zerar o desmatamento na Amazônia até 2030 e recuperar doze milhões de hectares de floresta para conter o aquecimento global. Será possível cumprir o compromisso neste ritmo?

São muitas perguntas, mas a resposta está em cada um de nós. É urgente a necessidade de reconexão com a (nossa) natureza e lembrar que não somos parte dela, somos ela. Da forma que pudermos, precisamos tomar atitudes diárias para reverter este quadro. Do contrário, teremos que nos acostumar com um ecossistema doente e a ver para sempre a nossa maior riqueza cercada por concreto, limitada à uma parcela da população que pode pagar para vê-la e sendo mais atração turística do que paisagem natural.

A Amazônia pede socorro. Basta saber ouvi-la.