Desenroladas


As chaves do Interno – restaurante em Cartagena emprega detentas

Por Adriana Martins

Estive na Colômbia e lembrei de você. Você que gosta de comer. Segura essa dica de restaurante e lembre-se dela se for a Cartagena.

Foi a primeira vez que saí de um restaurante com os olhos aguados. Plena daquele sentimento que bate quando a comida alcança todo o seu potencial, não apenas de nutrir ou dar prazer, mas de oferecer uma experiência repleta de significados: emoção, afeto, boas memórias. Cheguei numa quarta à noite em Cartagena, depois de outros três muito ricos em Bogotá (primeira viagem solo internacional). Já tinha rolado cerveja, bate-perna, novos amigos no hostel. Faltava um ótimo restaurante.

No dia seguInte, entre a soneca da tarde e os planos para a noite, o alarme da barriga tocou: hora de jantar. Catei o celular em busca de indicações. Na pesquisa, um site gringo recomendava o Interno. A proposta me fisgou de cara: toda a comida e o atendimento são feitos por internas do presídio feminino de segurança mínima de San Diego (localizado na chamada Cidade Amuralhada, centro histórico de Cartagena). O restaurante funciona num pátio do próprio equipamento de segurança.

As mulheres selecionadas para participar do projeto foram treinadas por um chef para comandar cozinha e salão. Dessa maneira, aprendem um ofício e poderão dispor dele quando saírem, facilitando sua reintegração à sociedade. O dinheiro obtido é destinado a “melhorar a qualidade de vida das reclusas, suas famílias e outros que estão ou já estiveram presos na Colômbia” (segundo texto no cardápio).

Fiquei entusiasmada em poder contribuir com essa iniciativa, fundamentada no entendimento de que comida pode, sim, ser um meio transformador de vidas (para algo semelhante no Brasil, dê uma olhada num projeto chamado Gastromotiva).

Não suficiente, vi que era pertinho do hostel – três minutos de caminhada sob as luzes charmosas daquela bolha que é a Cidade Amuralhada e eu estava na porta. “Sim, pra uma pessoa”, respondi à simpática mulher que me recebeu, num portunhol barato que quebrou galho durante toda a viagem, graças à paciência dos colombianos.

O lugar é um charme: um pátio com plantas, pequenas luzes espalhadas e decoração colorida (como tudo na cidade). O atendimento, cortês e eficiente: num instante minha água estava na mesa e os pedidos, feitos. O Interno trabalha com menu fixo – entrada, prato, sobremesa e suco por 90 mil pesos. Sim, caro, mas um valor que considerei justo pelo conjunto da obra. É daqueles locais para ir se você pretende esbanjar uma vezinha com comida.

Havia cinco opções de entradas, outras cinco de pratos e mais três de sobremesas – cardápio enxuto, para a alegria desta indecisa (e sempre um bom sinal: sobressair-se com menu reduzido é sempre mais difícil – se apenas aquelas receitas estão ali é poque foram pensadas com cuidado, no lugar de uma lista longa e “eclética”, quase sempre sinônimo de sem personalidade).

E, sim, as opções contemplavam todos: carnívoros ou vegetarianos, quem busca algo mais leve ou robusto. Desde o primeiro dia estava azilada por ceviche, e lá estava ele nas entradas, mas meu coração estacionou quando li na mesma linha “carpaccio de peixe”, “tamarindo” e “maionese”. Mantendo a proposta refrescante, fui de pescada do dia (Cartagena é uma cidade litorânea, com boa oferta de peixe fresco) em molho de coco queimado; e arroz de leite com redução de frutas cítricas para sobremesa.

Fiquei impressionada com a rapidez: em poucos minutos o peixe cru do carpaccio derretia na minha boca, envolvido por um molho frutado bem acentuado e a maionese delicada e picante. Sozinha, sem ter com quem dividir aquela satisfação que me invadia (infelizmente nem todo mundo acha que boa comida é investimento), fazia umas caras engraçadas e sorria, olhando para o prato, o que nao deixou de chamar atenção das mulheres. Espero que tenham endentido como um elogio.

A partir dali o deleite só aumentou: servido num prato bem fundo (quase um vaso, a bem dizer), o peixe em molho de coco queimado me fez tremer. Para tristeza, no entanto, veio com camarões e um mexilhão grandão. O primeiro não posso aproveitar porque sou alérgica; o segundo, porque não me apetece. Fica aqui minha única crítica ao Interno: no cardápio, a descrição do prato não trazia esses ingredientes. Se minha alergia fosse severa e não me permitisse apenas afastar os camarões, seria comida desperdiçada.

Ainda assim, quase lambi o vaso-prato. Tentarei guardar o sabor daquele molho para sempre. Ah, a coisa toda vinha acompanhada de um punhado de purê de batata e um “chip” de queijo (não era crocante, daí as aspas), bem gostosos. A sobremesa encerrou com a chave que um dia vai abrir as portas para essas mulheres rumo a uma vida melhor: equilibrada, não muito doce, com o contraste das frutas cítricas no arroz cremoso. Simples e delicioso.

Por último, mas nem de longe menos importante: o suco. Se eu pudesse trazer um garrafão de 20 litros cheio daquela limonada de coco na mala, teria feito. A bebida é uma espécie de “atração” em Cartagena. Mas tenho certeza que no Interno ela foi elevada a outro nível. A espuma cremosa denunciava o uso do coco seco, batido com limão. Só de escrever dá saudade.

Naquele conjunto estavam muito claros a técnica, a dedicação e, principalmente, uma mistura cheia de personalidade da cozinha colombiana com outras referências – ou ao menos da região onde fica Cartagena. Foi muito mais que um jantar: foi uma noite para lembrar, aliada a um desejo imenso de voltar ao país. Quem sabe voltar a Cartagena e dançar mais salsa, andar pelas ruas de madrugada depois de várias cervejas, maldizer o calor e ainda assim separar um dia só para se perder entre as construções antigas do centro histórico. Essas lembranças agora têm sabor, graças ao Interno.

Só tenho a agradecer. Comida transforma vidas. Em muitos sentidos.

Para saber mais:
http://restauranteinterno.com/