Desenroladas


O melhor de viajar é se perder

Desde criança um dos meus maiores sonhos é nadar com tartarugas marinhas. Em 2016, às vésperas do meu aniversário de 30 anos, decidi que realizaria esse sonho de infância em Fernando de Noronha. Fui. Na viagem, tive o privilégio de conhecer três espécies diferentes e de contemplar toda a beleza e magnitude desses seres. Uma delas eu vi logo no primeiro dia, de longe, no mar. As outras duas vi durante a captura intencional de tartarugas que os biólogos do projeto Tamar fazem para medir e ajudar a preservar as espécies locais. A realidade superou muito minha imaginação, mas ainda faltava aquele detalhe: nadar com elas.

Como presente para mim, marquei um mergulho de cilindro para a manhã do dia 20 de dezembro para poder ter um contato mais próximo com as tartarugas no habitat natural delas. Na noite anterior ao mergulho jantei cedo e dormi logo, cheia de ansiedade. Acordei. Saí do quarto, olhei para o céu escuro e fiquei chocada achando que havia levantado muito cedo. A verdade é que amanhecemos nublados – eu e o céu. Fui surpreendida com uma gripe repentina e com uma chuva torrencial que durou praticamente o dia inteiro do meu aniversário. Fiquei impossibilitada de fazer tanto o mergulho quanto diversas outras atividades no arquipélago. Meu primeiro pensamento foi: mas que bela bosta de aniversário de 30 anos. Porra, universo!

Tomei banho, tomei remédio, deitei um pouco e pensei nas possibilidades. Olhei o mapa de Noronha e escolhi fazer passeios por pontos históricos que ainda não havia conhecido. Não ia passar o “meu dia” mofando na cama, né? Estava com o buggy alugado então poderia ir para praticamente qualquer lugar. Peguei a capa de chuva e segui. Me perdi várias vezes. Levei queda. Ri muito. Chorei muito. Fui para o ponto mais alto da ilha e observei o local de uma maneira que nunca consta nos cartões postais: completamente cinza. Parei de ver o que faltava e passei a ver o que sobrava. Lembrei de todas as experiências incríveis que tinha vivido nos dias anteriores da viagem. Agradeci por estar ali, por ter conseguido chegar até aquele momento, pela minha companheira de viagem e vida, por ter teto, comida, saúde e trabalho, por todos os aprendizados e pessoas incríveis que conheci ao longo dessa jornada de 30 anos nesse plano. Apesar do tempo fechado, meu coração era só luz, só gratidão. Levantei e gritei: obrigada! Gritei de novo. E de novo.

Viajar é minha forma favorita de viver desde a infância. Todos os caminhos destoantes do roteiro original me ensinaram que na vida não existe certo ou errado. Existem múltiplas opções, todas igualmente válidas, e nós não controlamos nada. A vida acontece. Se não sairmos da zona de conforto nunca vamos aprender algo novo, não vamos evoluir. Podemos espalhar o que quisermos pela estrada. Quanto mais doamos, mais recebemos. A forma como escolhemos caminhar essa estrada é decisão de cada um. Mas com ou sem roteiro, o melhor de viajar é se perder.

Obrigada, universo!